1 – Arrulhos e Arrufos

Anos 70. Um setembro, numa pequena cidade.

Era namoro novo, de duas semanas. Mário tinha 30 anos, o ar taciturno dos que têm sempre a mente ocupada, um rosto nem bonito nem feio. Lílian representava quase o oposto: 18 anos, suave, bonita e com o sorriso fácil das moças dessa idade.

Viam-se frequentemente, pois Lílian trabalhava num escritório de contabilidade e Mário era subgerente de uma empresa madeireira e encarregado de levar papéis e documentos para processamento contábil. Os encontros, entretanto, restringiam-se aos fins de semana e a alguma noite em que a menina resolvia faltar às aulas.

Por temperamento, ou porque ainda fazia descobertas, Lílian adorava beijar e ser acariciada. No trabalho, porém, mostrava-se quase fria com o rapaz, sem os sorrisos cúmplices e os tons carinhosos dos dias que antecederam o primeiro encontro. Mário supôs a princípio que se tratasse de um acanhamento passageiro frente às colegas, mas concluiu depois haver um problema subjacente.

— A Lílian anda meio esquisita!… — comentou com Solange no escritório, enquanto tomavam um cafezinho. — Parece que está brava comigo!…

— É o jeito dela, Mário. Não é todo dia que ela está de bom humor.

— Então é azar meu — disse Mário, incrédulo. — Só venho aqui nos dias em que ela está de mau humor…

E prosseguindo:

— Você tem uma boa amizade com ela, não tem?

— Bom, a gente sempre conversa na hora do café. Às vezes saímos pra tomar um lanche… Eu gosto muito da Lílian!

— É, eu já percebi. Sabe, eu ando meio encucado desde o início do namoro. Saí as duas primeiras vezes com ela, e tudo estava bem. Mas para marcar o terceiro encontro foi um sacrifício!…

— Não será a família dela, Mário? Gente pobre mas tradicional: você sabe como é…

— Eu pensei nisso. Aquele maluco do Guará, que se diz entendido em Psicologia, achou que eu devia, através de um intermediário apropriado, propor ao pai dela um início de namoro. Eu, inocentemente, falei prá Lílian que tinha encarregado o Gilberto, um congregado mariano, da missão, mas a garota quase me bate. Tive que correr atrás do homem e desmanchar a mediação!

— Mário, eu não queria contar, mas no dia em que você viajou para Cessilva a Lílian esteve a ponto de terminar o namoro. Eu brinquei com ela: “Você vai deixar o Mário viajar para ficar dois dias fora?” Aí ela resmungou: “Já vai tarde!…”

No outro dia, ao fim do expediente, Mário passou pelo escritório para dar carona a Lílian. Ela estava alegre, mas o rapaz não.

— Você está diferente… — notou Lílian.

— Estou chateado… E além disso tive uma discussão com o Nilton lá na firma…

Ao frear o veículo junto à casa de Lílian, Mário perguntou:

— Vamos nos encontrar amanhã?

— Lógico! — respondeu ela alegremente.

— Lógico por que? Não parece uma coisa lógica, não!… — brincou ele, querendo estabelecer uma discussão semântica — E como a gente vai se encontrar?

— Não sei — respondeu ela magoada.

Por alguns momentos ficaram em silêncio. Ele então lembrou-se de que a moça teria prova naquela noite.

— Vocês vão poder sair mais cedo, hoje?

— Ahan! Mas depois vou trabalhar no escritório…

— E amanhã?

— Vou trabalhar, também. Cedo e à tarde.

— Quer dizer que a gente não vai se ver? — disse desapontado, enquanto ela saía do carro.

Lílian voltou-se, de novo alegre:

— E você não pode passar no escritório?!

— Pô, mas o escritório vai estar fechado!…

— Vai pelos fundos! O vitrô fica aberto…

Dizendo isso, voltou a sentar-se no banco do veículo:

— Vamos ver se ninguém está vendo…

E ofereceu os lábios para uma beijoca.

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