10 – Carícias, Insegurança e Lágrimas

Janeiro.

Mário chegou de volta das férias às 16 horas. Tomou um banho rápido e foi procurar Lílian. Quando dobrou a esquina da Rua Juriti, às 17 hs 20, a moça acabara de sair de casa. Ao perceber a aproximação de Mário ela abriu um largo sorriso; o rapaz também não cabia em si de contente. Quando ele parou, depois das palavras iniciais dentro do carro ela colocou o rosto junto ao dele, oferecendo-lhe os lábios. Ela ia fazer compras no supermercado. Os dois foram conversando, com ela algumas vezes encostando carinhosamente a cabeça no ombro do rapaz.

Ao voltarem para a casa ficaram um bom tempo na varanda, em conversas e beijos.

À noite também namoraram. Na varanda, Mário fez-lhe carícias íntimas e ela pareceu muito excitada; logo, porém, afastou a mão do rapaz e ficou alguns momentos como que deixando passar o ardor. Pouco depois ele a convidou para ir até o carro. Mas ela parou a meio caminho, como que indecisa. “Gostaria de saber o que você pensa de mim”, preocupou-se docemente. E já no carro: “Você me trata como se eu fosse uma mulher da rua…” Mário contestou, dizendo-lhe que nada de mal pensava dela; apenas achava que as carícias íntimas eram coisa natural, e que não havia porque evitá-las. Esses argumentos, segundo lhe pareceu, foram suficientes para sossegá-la. “Essas carícias te magoam?” preocupou-se ele. A garota não respondeu e Mário não insistiu. Iniciaram então novos jogos de amor.

No dia seguinte ela estava com um vestido, sem sutiã. Conversaram pouco. Na varanda, ele desabotoou o vestido na altura do púbis, isto depois de acariciar seus seios. Mais tarde, no carro, as carícias foram demoradas. Comodamente ele pode alcançar a vagina, passeando levemente um dedo pela sua entrada. Acabou se concentrando nesse movimento. Ela parecia muito excitada, deixando escapar pequenos gemidos. A mão dela apoiou-se levemente, quase imperceptivelmente, na dele, para indicar a parte superior de seu órgão sexual. Pareceu que ela teve um orgasmo.

Depois disto ela ficou muito quieta e séria. Num certo momento abaixou a cabeça, apoiando-a no peito de Mário, como se enxugasse lágrimas. Terminaram a noite conversando alegremente.

A partir daí o namoro parecia ter alcançado uma certa estabilidade, sendo os desentendimentos compensados pelo lento progresso nas carícias. Mas estas constituíam erotismo de mão única. Literalmente: afora os beijos compartilhados, era a mão dele no corpo dela. E a fórmula começou logo a se desgastar.

*

Março.

No carro, Mário brincou com ela:

— Ah! Lílian: dá prá mim!…

Prosseguiram dialogando num tom meio farsesco.

— Li, se eu lhe pedisse em casamento, você aceitaria?

— Aceitaria.

Mário pensou um pouco e insistiu:

— Na verdade eu não quero saber se você toparia. Veja bem: eu quero casar com você. Agora eu te pergunto se você está interessada em casar comigo.

— Eu quero casar com você. — respondeu ela.

— Vou falar com seu pai. Será que ele ainda está acordado?

— Não sei… — disse ela, entre encantada e divertida.

— Como é que a gente tem que fazer, hem? Bom, acho que primeiro a gente tem de ficar noivo, né? Ah, não sei. Será que seu pai ainda está acordado? Vou falar com ele.

Fez menção de levantar-se (estava deitado no colo dela), mas logo lhe veio novo pensamento: “… E se depois eu me arrepender?”

Continuou, agora “pensando alto”:

— Sabe, Lílian, eu tenho coragem de falar com o seu pai. Assim, na louca. Às vezes me sinto propenso a fazer loucuras…

— Então você acha que é loucura casar comigo?…

— Acho…

*

Dias depois, num domingo à noite, Mário começou os jogos amorosos, beijando-a e acariciando seus seios. Para isso levantou a sua blusa. Ficaram assim um bom tempo. Como, porém, não passou à região vaginal, pois ela menstruava, a excitação do rapaz acabou e ele não viu motivo para continuar; parou e acomodou-se no banco. Não havendo assunto a conversar, permaneceu mudo, ouvindo música e sentindo-me tentado a voltar aos seus pensamentos.

Enquanto isso ela começou a morder os lábios e a apertar os olhos, como se estivesse sofrendo por causa da interrupção das carícias. Poderia ser real ou não. Se fosse real, o que poderia ele fazer? Continuou no seu canto, apenas fazendo algumas carícias nos braços dela e depois pousando a mão sobre as suas coxas. Ela fez com que a mão dele desabasse sobre o banco.

Essa reação o fez permanecer quieto, pensativo, ouvindo a música de Vinícius e Toquinho. Às vezes fechava os olhos. Lílian se afastara bastante dele, encastelada na ponta do seu banco, junto à porta, emburrada e sofredora — ou apenas emburrada.

Às 22 e 30, ela não se despediu: saiu do carro, bateu a porta com raiva e entrou em sua casa.

*

No sábado seguinte, de manhã, cerca de 8 e meia, Mário viu que as crianças, no colégio defronte à República, recebiam aula de Educação Física. Algumas normalistas encontravam-se junto da professora. Uma delas, num certo momento, soltou uma grande baforada de fumaça; reparando melhor, Mário percebeu que era a Lílian. Daí a pouco dirigiu-se ao alambrado do colégio e chamou: “Professora!” Quem olhou foi realmente a professora, e não a Lílian, como ele pretendia. Mas a Lílian, avisada, veio até onde ele estava. Separados pelo alambrado conversaram um pouco, alegre e ternamente.

Às 11, Mário dirigiu-se com o Pedro ao bar fronteiro à República. Lílian tomava refrigerantes com três colegas e ele foi até elas. Mais próxima de Lílian estava sua colega Odete, a quem ele havia sido apresentado outro dia. Lílian recebeu-o com alegria. Ele também estava de bom humor e nesses 20 minutos que estiveram juntos se sentiu realmente seu namorado. Num certo momento pegou o caderno de estágio da garota, disposto a ler suas anotações. Mas ela então o agarrou, tentando tirá-lo de suas mãos. “Olha! Você vai rasgar o caderno!”, advertiu o rapaz, sem largar a presa. Aí Lílian pediu ajuda à Odete, que conseguiu resgatar o caderno. “Ah, da Odete é mais fácil tomar!”, disse ele, tentando por em prática a idéia. Ao fazer isto, porém, seus dedos roçaram levemente num dos seios da menina. Teve de desistir.

*

No domingo, foram a um bar com a Júlia, onde Mário desceu e comprou cigarros para ela. Voltando à casa, Lílian e ele ficaram no carro. Durante um bom tempo conversaram. Depois passaram aos jogos amorosos, que duraram mais de 1 hora. Ao contrário das últimas vezes, ela não fez objeção a que ele percorresse com o dedo a parte da vagina abaixo do clitóris; mas ele não se aproveitou disto, em parte por causa dos jeans, que dificultavam seus movimentos. Na verdade, ele é que não conseguira ficar excitado. Andava muito inibido e acabou se desinteressando de continuar a excitação da parceira.

Então parou e, como não surgiu assunto, ficou estático e mudo, ouvindo música e deixando que pensamentos nada alegres passeassem pela sua mente.

— Mário, não gosto que você fique assim…

— Ué, mas se não tem nada que fazer… Se a gente não está conversando, se eu não estou te acariciando, o que você quer que eu faça? Ficar olhando para a sua cara?

— Claro! É melhor do que ficar aí…

E ela se interrompeu, segurando a sua raiva.

Os namorados se despediram às 10 e 10, quando poderiam ficar até a meia noite ou mais.

*

Num dia útil seguinte, no escritório, depois de atendê-lo, Lílian saiu de sua mesa e achegou-se ao balcão, para onde ele se encaminhava. Aí conversaram um pouco.

— Eu queria te ver… — confessou ela, timidamente. Mário garantiu que passaria em sua casa à noite.

Á noite ela estava incrivelmente bonita (achou ele) e muito carinhosa. Durante algum tempo, que passou rapidamente, estiveram abraçados, de pé, conversando e se beijando. Depois de levar a marmita da pensão à República, Mário voltou à casa da menina para lhe dar uma carona até o colégio.

*

Tempos atrás surgira a conversa de que a mulher do comerciante da Casa X “estava dando” para o César, e que o marido enganado descobrira. Falou-se em briga e desquite. A partir desses fatos surgiram posteriormente duas versões do desenrolar da situação.

A primeira dizia que o comerciante tivera uma conversa com César, até aí seu amigo, e este desmentiu categoricamente a notícia: “Quem foi que te disse? Quero que ele repita isso na minha frente!” É claro que o português não disse o nome do informante. Depois disso, entretanto, convenceu-se de que tudo não passara de “boatos do povo”.

A segunda versão era a seguinte: o comerciante não falou com César, estando convencido da veracidade da informação. Teria dito aos amigos, com quem se reunia diuturnamente em torno da mesa de cartas: “O culpado fui eu mesmo. Por causa deste Truco não estava dando assistência à minha esposa…” Seria sua intenção desviar, daí por diante, parte da energia costumeiramente utilizada no jogo, em benefício da sua mulher.

Na época dessas versões Mário conversou com Lílian sobre o caso. Soube que a mulher dissera à garota, durante uma conversa na cabeleireira: “Olha, Lílian, isto que estão falando é pura mentira. Não aconteceu nada entre eu e o César. O que há entre nós é apenas amizade.” A Lílian acreditara em suas palavras.

Dias atrás, mais precisamente no domingo, chegou ao conhecimento de Mário um novo e, desta vez, seguro elemento. À tarde, a mulher de uma Brasília verde passou na rua em frente à República, mais de uma vez, e sempre olhando. Estavam lá apenas o Pedro e o Paulo. O Pedro dirigiu-se ao portão e na próxima vez em que ela passou fez-lhe sinal para que parasse. Estavam também no carro outra mulher e uma criança. Pedro bateu um papo com ela e combinou um encontro para a noite. Ela parecia estar preocupada com estar conversando ali na rua, pois, segundo informou, “era casada”.

À noite o Pedro foi até as proximidades da igreja matriz. A mulher, que logo chegou (ou já estava por ali), encostou seu carro numa rua secundária e entrou no 1600 do Pedro, que rumou para a entrada da Fazenda Z, a poucos quilômetros da cidade. Naquela estradinha “comeu” a mulher, que não era outra senão a esposa do comerciante.

*

Numa sexta-feira Júlia convidou Mário para ir ao baile. Ela e a Dayse haviam reservado uma mesa e gostaria que a Lílian e ele também fossem. O rapaz topou. “Mas é sério mesmo, Mário?” perguntou ela. “Bom, se você duvida, então eu não vou!…”, brincou ele.

Na noite seguinte ele estava, como de costume, namorando no carro. Veio-lhe então a necessidade de dizer a Lílian que não estava exatamente animado com a perspectiva de ir ao baile.

— Não tem sentido — disse ele. — se a gente estivesse realmente namorando, se eu tivesse por você outro interesse além do sexual, então estaria bem. Mas do jeito que é o nosso relacionamento, não dá vontade de aparecer contigo em baile, em lanchonete, em cinema…

De fato, em geral ela não se sentia bem quando estava em público junto com ele. O caso do bar, no outro dia, fora uma agradável exceção. Era verdade também que no escritório ela deixara de tratá-lo “como um cliente de segunda classe” (como ele dissera muitas vezes), para admitir, pelo seu comportamento, que ele era seu namorado. Mas na visão de Mário isto seria provavelmente só uma atitude estudada. Ele pensava: “Com ela só dá sexo. Se vou contar o que me acontece, ela só demonstra um interesse polido; por outro lado, ela gosta de guardar consigo seus problemas, desde os mais graves até os menores, inclusive aqueles que me dizem respeito. O que resta, então? Só beijos, bolinações, excitação da sua região vaginal. Quando isto acaba, só posso cruzar os braços, encostar-me do meu lado e ficar ouvindo música…”.

As palavras de Mário a deixaram profundamente magoada. Lílian começou a chorar baixinho. Mais tarde, quando ele procurou afagá-la, ela afastou bruscamente a mão do rapaz. Mais adiante ela aceitou os carinhos, mas as lágrimas continuavam. Por diversas vezes Mário achava que o choro ia parar, mas logo ele recomeçava. Finalmente ele a levou até o portão e se despediu beijando seus cabelos.

*

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