11 – O Olhar Algemado

No sábado de manhã, antes de partir para Serenília, onde visitaria uma floresta, Mário deu um pulo até a casa de Lílian. Como acreditara nas lágrimas da noite anterior, o remorso o atormentava. Eram já oito horas, mas o céu estava encoberto e a casa silenciosa. No chão úmido da rua havia rastros do Corcel do seu Paulo, que saíra. Achou que não havia ninguém na casa, mas arriscou chamar timidamente pela moça. Não recebendo resposta, voltou ao carro. Foi então que a janela da cozinha se abriu e o rapaz se encaminhou para lá. Era a Lílian, que se debruçou à janela.

— Está brava? — perguntou ele, acariciando seus cabelos.

— Não — respondeu ela docemente.

— Está com raiva de mim?

— Não.

— Li, eu vou agora para Serenília. Olhe, ontem à noite eu não me expressei bem. Quando eu me sinto envolvido, minhas idéias ficam muito confusas. Eu não quis te ofender, Li…

Ela retribuiu os carinhos, pressionando seu rosto contra o dele.

— Olha, à noite, se você quiser, a gente vai ao baile, tá? — completou ele.

*

Mário chegou de Serenília às 21 horas, e antes do banho e de mastigar alguma coisa dirigiu-se à casa da garota. Uma hora depois, já banhado e barbeado, lá estava de novo, pronto para ir ao clube. Ficaram algum tempo namorando no sofá. Estava um pouco frio. Às 22 horas os dois sairam juntamente com a Júlia e a Dayse..

No clube, logo depois que o grupo se acomodou, e enquanto Dayse e Mário trocavam animadas palavras com a Júlia, o rapaz notou que Lílian olhava numa certa direção. Até aí, nada demais. Mário continuou quase à vontade, apreciando as evoluções dos casais que dançavam. Tinha as mãos presas às de Lílian, sentada junto dele. De repente a moça abaixou a cabeça, como fazia quando um sentimento negativo a dominava. Seus cabelos tapavam os dois lados do seu rosto.

Mário começou a se preocupar e sentir-se desconfortável. Ela olhou na mesma direção e depois, passados alguns momentos, outra vez. O rapaz não teve coragem de investigar o que havia no ponto que tanto atraía o olhar da menina. O rosto de Lílian voltou-se ainda umas duas ou três vezes para aquele lado. Num dos intervalos ela abaixou novamente a cabeça. Finalmente a moça cochichou-lhe ao ouvido:

— Vamos lá fora?

Sua voz e seu rosto eram quase de choro, mas o rapaz não notara e acabou regateando, embora também estivesse desconfortável:

— Lá fora, para quê?

Mas a um novo apelo da garota ele se levantou e os dois sairam. Ao passarem por uma mesa Mário viu que um rapaz de bigodinho (que ele achou debilóide e “com cara de lavador de peças de oficina”) encarava Lílian fixamente.

Ficaram um pouco na entrada do clube e a seguir foram caminhando lentamente para fora do terreno. Ela queria entrar no carro, pois estava frio. Ele não sabia o que fazer, com aqueles olhares do clube em sua mente. Afinal concordou e entraram no carro. Depois de alguns momentos, perguntou:

— Que havia de interessante naquelas mesas para você olhar tanto, hem?

Ela respondeu qualquer coisa como se não tivesse apreendido a intenção da pergunta. Mas ele insistiu e a moça afirmou que olhava na direção da entrada, para ver quem chegava. A explicação não o convenceu, pois durante o tempo em que lá ficaram ninguém mais entrou no clube. Por outro lado, Mário tentou imaginar se era possível que o olhar dela se dirigisse para a entrada, e achou que não. A impressão dele, lá dentro, era que o objetivo era um grupo de mesas a noroeste da sua posição, quando a entrada ficava a leste. Ela jurou que seu olhar ia para a entrada. O rapaz disse-lhe que não acreditava nem mesmo em seu juramento. Acrescentou que aliás tinha motivos de sobra para não acreditar, haja visto as inúmeras mentiras que ela lhe pregara, além do precedente do casamento.

Mário estava acabrunhado. Começou a filosofar em voz alta, a expressar seu desencanto com a vida e a humanidade. Ela permanecia calada, esperando decerto que a tempestade passasse. De fato, depois de um bom tempo passou. O rapaz aceitou então os seus beijos e começou a acariciá-la. Esqueceu tudo, achando maravilhoso estar ao lado da menina. Sua mão alcançava facilmente a vagina, por sob o vestido. Desinibido, seu membro ficou logo agradavelmente firme.

Depois disso se encheu de ternura quando ela reclamou estar com os pés gelados. Ele segurou os pés dele entre as mãos, tentando aquecê-los. Envolveu-os depois com uma blusa que guardara no portaluvas. Ficaram assim um bom tempo; por diversas vezes o sono chegou e chegaram a cochilar. Cerca de 3 horas as duas irmãs de Lílian saíram também do clube, com dois rapazes. Tocaram então para a casa de Lílian.

*

No domingo, os tais olhares voltaram à mente de Mário. À noite foi à casa de Lílian. Ela estava sozinha e depois dos beijos iniciais, ainda na varanda, foram até o sofá maior da sala. Ali ele se isolou de suas demonstrações afetivas. Permanecia com a cabeça recostada, quieto e pensativo.

— Você está chateado? — perguntou ela depois de algum tempo.

— Não, não estou chateado.

— O que você tem, então?

— Nada; estou magoado, desesperançado…

A moça quis saber se era com ela; ele disse que sim. Como ela não quis entender, explicou que era ainda o caso do baile e dos olhares. Ela permaneceu calada e cabisbaixa.

Num certo momento ele se interessou pela música que vinha do toca-discos, e seu rosto, cansado desses problemas, começou a desanuviar-se. Mais adiante ele já correspondia aos beijos da menina, embora sem entusiasmo. Quando ia crescer o seu interesse, ela deixou escapar, no meio de um beijo, o riso provocado por um dito qualquer do seu irmão caçula na outra sala. A pouca sinceridade dos seus lábios o deixou novamente frio e encaminhou-se para a porta. Eram apenas 10 horas.

*

Na segunda-feira Mário esteve a ponto de terminar novamente o namoro. Por uma quase exigência sua, Lílian resolveu “enforcar” a primeira aula e saíram. Ele voltou ao assunto dos olhares no clube, intimando-a a contar a verdade.

— Que você quer que eu faça: quer que eu invente uma coisa que não aconteceu?

O rapaz percebeu de repente que não era possível continuar a discussão, por absoluta falta de novos elementos. Continuar seria fazer a mesma acusação e ouvir a mesma justificativa capenga mas intransigente.

Mais adiante, quando mais uma vez o carro entrava na praça central, Mário disse a ela:

— Acho que vou terminar com você, Lílian …

— Se você quer, eu não posso fazer nada, né?

— Quero, não. Você é que me obriga a isso…

Ficaram um bom tempo calados.

— Não sei o que eu faço… — disse ele.

Estavam parados defronte à escola.

— Está na hora da segunda aula, né? — disse ele olhando o relógio.

— Ainda faltam 5…

Ela segurou a mão dele, acariciando-a, e como ele correspondesse, logo se beijaram. A alegria voltou.

— Você quer ficar comigo esta noite? — perguntou ela

— E a prova?

Ela disse que não havia problema, pois não estava mesmo com a intenção de terminar o curso.

Foram ao cinema. Depois, defronte à casa, conversavam alegremente. Falaram afinal de sexo e ele explicou como o pênis ficava ereto, quando ocorria a ejaculação, etc. Numa certa hora, “continuando a aula”, pegou a mão dela e colocou-a sobre a sua virilha.

— Agora o passarinho está quietinho, adormecido… — disse ele.

A mão permanecia inerte, e logo a garota a levou de volta.

*

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