2 – Controles Externos

Às 10 e meia da manhã do sábado Mário passou pelo escritório, encontrando a porta principal entreaberta. Lílian apareceu no vestíbulo, apressada:

— Mário, espera só um minutinho. Pega um jornal aí. Senta.

Logo depois, no salão principal, os funcionários reunidos entoavam um “parabéns a você”, enquanto no vestíbulo o rapaz, obedientemente, folheava “O Estado de São Paulo”.

Terminado o canto, a moça reapareceu e os dois sairam para o carro.

— Por que você não entrou? — disse ela, alegre.

— Ué, você não me convidou!…

— E precisava?!

— Claro que sim!

Depois de baterem as portas do carro o rapaz falou:

— Lílian, é o seguinte: eu achei que você está a fim de terminar comigo, e quero falar sobre isso.

— Quem te falou isso?!

— Ninguém; eu mesmo cheguei a essa conclusão.

Ela apoiou a fronte no ombro de Mário, segurando seu braço direito com as mãos.

— Você é que está diferente comigo… — disse carinhosa.

— É por causa dessa dúvida — disse ele, já reconciliado. — Pensei comigo: se ela quer terminar, o jeito é facilitar as coisas pra ela…

Lílian olhou para ele, divertida.

À noite, conforme o combinado, Mário passou pela casa de Lílian para irem à Missa. Defronte ao portão a moça apresentou sua irmã Dayse, de 22 anos, magra, simpática mas sem o atrativo da beleza.

— Vocês vão à Missa também? — perguntou ela.

— Nós vamos, Lílian? — quis saber o rapaz.

— Vamos…

Quando o carro estacionou ao lado da igreja, entretanto, Lílian deixou que sua irmã saísse primeiro.

— Não vamos entrar? — perguntou Mário, enquanto o vulto de Dayse desaparecia pela porta lateral do templo.

— Prefiro ouvir música. Vamos dar umas voltas?

Ficaram um bom tempo rodando pela avenida principal, ao som do tocafitas, até que Lílian se lembrou de um encontro combinado com a Solange. Rumaram então para o Quico.

A lanchonete Quico tinha um anexo que nas noites de sábado se transformava numa discoteca, com luzes negras e painéis fosforescentes. Foi nesse lugar que os dois localizaram Solange, sentada entre amigas numa mesa de canto. O som estrondava pelo ambiente, ainda com poucos frequentadores.

— Mário! — quase gritou Solange debruçando-se sobre a mesa. — Eu tinha combinado com o meu noivo de fazermos um programa com vocês dois, mas ele mandou avisar que não pode vir…

— Tá legal, Solange! Fica pra outra vez!

O casal procurou um lugar vago e acomodou-se. Pouco depois a música parou e o pequeno grupo que dançava voltou às mesas. Sentados lado a lado, bem juntos, Lílian fazia sua face colar à de Mário, o canto dos lábios pedindo um beijo ostensivo. Relutante, pois nas outras mesas apenas se conversava e bebia, o rapaz esperou o momento mais propício e lhe deu um beijo rápido.

— Você está a fim de ficar aqui? — perguntou ele depois.

— Não…

— Nem eu. Vamos sair?

Como já estava na hora da Missa terminar, Lílian traçou o roteiro mais curto até sua casa. Ali, na penumbra da área, se beijaram gulosamente, enquanto as mãos de Mário percorriam os cabelos de Lílian, descendo levemente até o tecido que recobria os seios da moça.

No domingo à noite, pela primeira vez, Mário entrou na sala de estar. Ali se encontrava a outra irmã de Lílian, Júlia, de 20 anos, com bom traquejo social e, em beleza, numa posição intermediária entre Lílian e Dayse.

— Oi! — cumprimentou o rapaz, com a mão estendida. — Tudo bem?

— Tudo bem! E você?

— Tudo jóia. Você trabalha na Prefeitura, não é?

— Sim; faço lançamentos contábeis, como a Lílian. Mas sente-se, fique à vontade. E você trabalha na Pau-Brasil?

— Sim…

Pouco depois, Lílian, que saíra por um momento, voltou à sala.

— Que filme passa hoje, Lílian? — perguntou o rapaz.

— Não sei… Mas ouvi dizer que vai ser bom.

Júlia interrompeu, levantando-se:

— Lílian, não se esqueça de que hoje vamos receber visitas!…

E saiu para a cozinha.

— E então, Lílian: vamos ou não?

— Droga! Eu queria ir, mas…

— Não tem problema, Li. A gente vai outro dia…

Mário foi com a moça até a casa de Maristela, uma colega, que seria avisada da desistência dos dois. “O pai dela não deixa ela sair sozinha…” — explicara Lílian.

Na volta, as visitas já haviam chegado e um jogo de cartas ia começar. Junto à mesa da copa estavam Dayse, Júlia e o namorado Nélio, a mãe de Lílian e mais dois jovens, os irmãos Tadeu e Yasmim. Lílian e Mário acomodaram-se também, para participar.

A reunião foi se tornando divertida. Jogaram de início o “mau-mau”, passando depois ao “pif-paf”. Mário se sentia relativamente à vontade em meio àquele bom humor geral. Yasmim, entusiasmada com o novo negócio do pai, do qual participava, fazia o relato de alguns lances do negócio. Isto provocava dichotes e tiradas das outras pessoas. Em nenhum momento, entretanto, se fez referência a um fato que normalmente seria um tema perfeito para brincadeiras: o namoro novo da Lílian.

Perto da meia-noite as visitas se prepararam para sair, sendo acompanhadas pelo pai e pela mãe de Lílian, que até então haviam mantido distância da mesa de jogos.

Pouco depois, junto ao portão, no escuro da rua transversal, Lílian e Mário finalmente se abraçaram e se beijaram, enquanto a pouca distância as outras pessoas ainda conversavam junto aos seus carros.

— Eu já não aguentava mais esse jogo idiota! — desabafou a menina.

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