22 – Tempos Difíceis

Setembro.

Após a descoberta de que o namoro no carro fazia Mário e Lílian “íntimos demais”, a família dela procurou levar o casal para dentro de casa e para atividades sociais. Por algum tempo a mãe de Lílian concordou com uma trégua. Mas certamente acabaram descobrindo, ou adivinhando, que as intimidades continuavam, agora na varanda e na sala de estar.

Há pouco mais de 1 mês a Júlia, em nome de sua mãe, que “tinha medo” de falar com Mário, tentara colocar o rapaz “contra a parede”. Queria uma definição de sua parte, desde, porém (deu a entender) que essa definição não apontasse para casamento ou para o prosseguimento “desse namoro” com a Lílian.

— Você quer que eu termine com a Lílian? — perguntou ele, objetivo.

— Não é isso o que eu estou dizendo, Mário… — respondeu Júlia.

Para Mário era exatamente isso o que ela propunha como única opção. Mas para a família, inaceitável não era o namoro, mas “esse tipo de namoro”. Assim, deu ao casal, sem explicação clara, duas opções: terminar ou enquadrar-se imediatamente num namoro que respeitasse as convenções vigentes no ambiente frequentado pela família.

Por influência da Dayse, mais conciliadora, alguns dias depois tentaram iniciar o enquadramento do casal. Júlia e Dayse reclamaram para Mário dos encontros noturnos nos dias úteis da semana. Argumentaram que por causa deles a menina toda noite jantava pouco e às pressas, preocupada porque a qualquer momento o namorado chegaria.

Ele achara legítimas essas alegações, e comprometera-se a só comparecer, nos dias úteis, em alguma ocasião especial. E ele estava seguindo à risca essa nova norma, que antes já tentara espontaneamente por em prática, sem sucesso. Quanto a atividades outras que não as de se refugiarem num canto escuro, Mário estava, nos fins-de-semana, à tarde, ensinando a Lílian a dirigir seu carro.

*

Domingo. Foi um dia de “bom comportamento”. À tarde os dois se ocuparam com a aula de automobilismo (entraram na lição de “baliza”) e depois conversaram longamente.

Lílian contou a Mário, “mesmo sabendo que ele não iria acreditar”, que o episódio do encontro com Sérgio no casamento de fato não acontecera. Tudo não teria passado de u’a mentira a servir de pretexto para terminarem o namoro.

A conversa começou quando ele perguntou a Lílian “que fim levara” a Solange.

— Porque? Ainda está gamado nela? — retrucou ela, depois de informá-lo.

— Bobinha! Não é que eu esteja gamado; é que eu gosto da Solange. Sempre achei ela uma menina legal.

— Eu não penso assim…

— Não sei por quê. Ela sempre foi a favor do nosso namoro…

— Você é que pensa!…

Contou então que a Solange vivia provocando seus ciúmes, dizendo que ia “tomar o Mário” dela. Isto lhe parecia verdade, pois ele “só dava atenção à Solange” quando ia ao escritório.

— Claro que eu ia direto pra mesa dela! — replicou o rapaz. — É porque ela sempre me recebia com boa cara!…

Na ocasião do casamento, disse Lílian, ela teria decidido romper com Mário após uma mesa redonda com as colegas Elaine e Maristela. O motivo teria sido o pretenso envolvimento de Mário com a Solange (“Ela já estava grávida e chegou a me dizer que você ia casar com ela…”).

Mário disse para seus botões: “Agora não sei (e nunca vou saber) se a minha mentirosa mentiu naquela época ou mente agora. Ou em ambas as ocasiões.”

À noite assistiram ao filme “Quando as Metralhadoras Cospem” (Bugsy Malone), de que o rapaz gostou muito.

Entrando na casa, eles viram que o sofá principal, defronte à televisão, estava todo ocupado por Dona Luci, que se deitara nele. Os namorados foram então para o sofá dos fundos. Meia hora depois, a senhora foi à cozinha, onde o filho caçula lhe disse em voz alta, para ser ouvido da sala: “Ei, Véia, não adiantou nada você deitar no sofá! Ele foi no outro!” Isso era a indicação de que a trégua estava terminando…

Segunda-feira. Júlia e a mãe brigaram com Lílian. Argumentaram-lhe que Mário não ia casar com ela, e que portanto ela estava desperdiçando a sua juventude.

*

Sexta-feira. Numa certa hora, no escritório, começou a sair sangue do nariz da Lílian e ela se descontrolou emocionalmente. Ficou tão assustada que no hospital foi preciso que duas pessoas a segurassem para que o médico lhe pusesse um chumaço de algodão que estancasse o sangramento. A menina, realmente, “não pode ver sangue”.

*

Sábado. Lílian se encontrava fortemente gripada e à tarde Mário nem chegou a entrar em sua casa. Trocou algumas palavras com ela, despediu-se e foi embora. Comentário de sua mãe, depois: “Ainda bem que ele foi embora, porque senão eu ia tocar ele daqui. Onde se viu, com a Lílian doente!…”

À noite ele apenas foi ver como a Lílian estava, e acabou ficando. Na casa só permanecera o pai da moça, deitado no quarto, e os dois puderam estar juntos sossegadamente, com a menina quase boa. Porque ela precisava repousar, e também por prudência, o rapaz se despediu às dez horas.

Domingo. A Lílian estava bem. Realizaram a aula de direção e conversaram. Mário tentou discutir com ela como iriam enfrentar as tempestades que se avizinhavam, mas a menina parecia pouco preocupada, quase desinteressada do problema. Ele ficou ainda mais chateado e falou em terminarem, mas ela não o levou a sério.

À noite foram ao cinema. Gostaram do segundo filme, “Os Aventureiros”, com Alain Delon e Lino Ventura, e uma bela mulher fazendo a personagem Laetitia.

*

Domingo. À noite, quando Mário chegou lá para irem ao cinema, Dona Luci falou para Lílian:

— Até quando você vai continuar se encontrando com esse …?

— Até o fim da vida! — teria ela respondido.

Com isso ela saiu para encontrar o namorado no portão, enquanto a senhora gritava para ela fechar a porta. Estava ainda cedo para o segundo filme, mas como não puderam entrar na casa, resolveram chegar com atraso para a primeira sessão, ficando também para a segunda.

Voltaram às 11 e 15, encontrando a casa totalmente às escuras. Durante algum tempo ficaram no carro se acariciando. Depois da despedida Lílian encontrou a casa trancada, e teve de forçar a tramela da porta da cozinha com uma faca.

*

Outubro.

Sábado. Mário foi intimado para uma nova entrevista com a Júlia.

— E então, o que você resolveu? — perguntou ela.

Ele respondeu no mesmo tom:

— Resolvi que não vou terminar o namoro. Pretendo me casar com a sua irmã…

Começaram então as objeções: que ele não tinha terreno e nem condições de fazer uma casa, que a Lílian não tinha uma só peça de enxoval. E depois: que ele “tinha uma amante”, que ele “não era dinâmico como um homem deve ser”. E depois: que a sua mãe não aprovava esse namoro. E por final: “E se daqui a 10 anos você levar chifre?”

Depois disso, já com menos veneno, achou que o rapaz devia falar com sua mãe e seu pai, “pra ver o que eles dizem”. Achou, mais, que ele devia desistir dos encontros aos sábados e domingos, pois só assim a Lílian teria tempo de “ajudar na casa” e participar das atividades da Associação.

Durante todo o diálogo a Lílian esteve ao lado de Mário e semivoltada para ele, vibrando interiormente com as suas respostas.

*

Sábado. Durante todo o dia mãe e irmã infernizaram a vida de Lílian. À noite, pouco depois da chegada de Mário, e quando ele ajudava a Lílian num trabalho escolar, Júlia a chamou para lavar os pratos da janta. “Depois eu vou!” disse a garota de mau humor.

— Depois, não; é agora! — vociferou a outra.

Quando a menina ia levantar-se a voz continuou:

— Você vem ou vou ter que te buscar?

A Lílian, de raiva, voltou a sentar-se.

— Vai, benzinho! — pediu Mário, preocupado.

Ela seguiu o conselho.

A outra, entretanto, não sossegou; continuou falando e provocando.

— Cala a boca! Me deixa em paz! — explodiu a Lílian.

A outra continuou. A Lílian:

— Cala a boca!!

A outra continuou.

Lílian largou os pratos e avançou desesperada até onde Mário estava.

— Está vendo como ela é? — falou a Júlia com fria raiva, como se a culpa coubesse a Lílian.

E virando-se contra o rapaz, também considerado culpado:

— Mário, a partir de hoje não queremos mais que você venha aqui em casa!

E arrematando, como quem teme uma rebeldia:

— Tá?

Mário olhou para o pai de Lílian, que chegara à porta:

— O que o senhor pensa disso tudo, seu Paulo? É isso o que o senhor quer? — duvidou.

— É! — disse o homem com pouca firmeza. — Eu também acho que não.

No início da cena a Lílian saíra chorando para a varanda. Passou ainda um minuto e o rapaz também saiu, à sua procura.

— Me leva com você, Mário! — disse ela abraçando-o, o rosto em lágrimas. — Não quero nunca mais pisar nesta casa!

Ele a foi acalmando, e acabaram entrando no carro. Durante um bom tempo ficaram, ela chorando e ele enxugando as suas lágrimas com o rosto e com o ombro. Finalmente já conversavam sobre a situação. Às 11 horas, ou mais, se despediram ternamente.

*

Na noite seguinte forçaram a situação; a menina quis que apesar de tudo ele fosse lá. Não entraram, a despeito da insistência dela (“Ninguém vai te falar nada, Mário!”). Ficaram namorando no carro, com beijos e carícias de redobrado calor. A Lílian parecia bastante excitada; os dedos do rapaz sentiam o intumescimento do clitóris.

Cerca de 10 e meia a Júlia chegou. Entrou na casa e pouco depois, antes de voltar à Associação, bateu no vidro do lado da Lílian:

— A mãe está te esperando! — disse num tom ameaçador.

Quando o outro carro desapareceu, Mário foi com Lílian até o portão e se despediram.

*

Depois dessa noite não mais voltaram a se encontrar, a não ser por breves momentos. Ele acostumou-se a levá-la, na hora do almoço, ou depois do expediente, até uma ou outra esquina próxima de sua casa. Depois, nem isso. “Eu acho chato, Mário, ficar descendo do carro na rua…” Ele concordou que havia uma conotação clandestina e que deviam evitá-la.

*

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