23 – Encontros Furtivos

Nos dias seguintes ao do rompimento com a família de Lílian, Mário andou pensando em mil soluções. “Foge com ela!” aconselharam a Selma e o Pablo, um par que estava prestes a casar. O rapaz pensou realmente nisso, mas alguma coisa lhe pedia que esperasse. O gerente da firma se informou com um advogado e assim Mário ficou sabendo que uma fuga nenhum problema lhe traria, pois a moça, com mais de 18 anos, era “dona de seu corpo”. O que poderia ocorrer era a família, apesar da fuga, opor-se ao enlace. Nesse caso o próximo passo seria solicitar ao juiz que autorizasse o casamento da menina, ainda menor de 21 anos. Para continuar a oposição deveria o pai da Lílian apresentar motivos válidos pelo critério do magistrado.

O correr dos dias o fez abandonar a alternativa. Lílian talvez topasse (ela garantiu-lhe que sim), mas nunca seria uma decisão tomada pelos dois; ela simplesmente seguiria a decisão dele. Isto não teria qualquer importância, se o rapaz acreditasse que ela o amava…

*

Quinta-feira. À tarde Mário chegou no escritório justamente na hora em que os demais funcionários iam cantar o “parabéns a você” para a Lílian. Acompanhou a cantoria, vendo como a menina ficou emocionada, tão emocionada que nem olhou para ele (que antes já lhe falara um “oi”). Depois que os outros saíram, ele pôde dar-lhe um beijo, afagando-lhe os seios. Em seguida acompanhou-a até a esquina próxima à casa, onde se despediram com uma beijoca. Nenhum assunto importante, nenhum plano, nenhuma emoção.

*

Depois dessa nova ducha fria em seus sentimentos, Mário resolveu passar uma temporada sem aparecer. Na quarta-feira, entretanto, o gerente precisava de alguns formulários e encarregou-o de buscá-los no escritório.

— Pensei que tinha morrido! — ironizou ela.

— Num certo sentido, isto pode ser verdade! — retrucou ele.

E saiu para o carro, sem que ela manifestasse desejo de conversar. O rapaz, porém, precisou voltar, para esclarecer uma dúvida com o João, e depois achegou-se à Lílian:

— Aceito um cafezinho!

— Café não tem.

— Então aceito uma água!

Lá na “cozinha”, enquanto ela abria a geladeira, o rapaz passou-lhe a mão nos cabelos.

— E vê se não toca em mim! — disse ela, afastando-se um passo. — Você não está enjoado de me ver?

Como réplica, ele a abraçou fortemente, ela ainda segurando o jarro de água.

— Por que você não veio mais aqui? — perguntou a moça, já reconciliada.

— Porque você não queria me ver; se quisesse de verdade eu teria vindo.

— E quem disse que eu não queria te ver?

— Estava na cara, né?

E ela, voltando ao tema da demora dele aparecer:

— Você não sabe a raiva que eu passei…

Durante a conversa ele a observava; tinha diante dos olhos aquele corpo bonito, aqueles seios que sempre gostou de tocar. Foi se emocionando.

— Que droga! — murmurou. — Eu já tinha conseguido te esquecer; venho aqui e percebo que ainda estou apaixonado!

— Eu também estou apaixonada… disse ela.

Foram a um canto mais discreto e, vingando-se do jejum, ele a beijou demorada e ardentemente, acariciando seus seios e comprimindo o corpo dela contra o seu. Não se descuidava, entretanto, de vigiar a porta.

— Você vem amanhã? — perguntou ela.

— Só para um oi, um smack e um tiau? — retrucou ele, desanimado.

Ela prometeu:

— Eu vou conversar com você!

— Então tá. Eu venho.

No dia seguinte ele foi. Como sempre, contudo, ao dar 10 e meia ela pegou a bolsa para sair. Ele não quis lembrá-la da promessa do dia anterior e dessa forma tudo acabou ficando no oi, no caminhar juntos até a esquina, na beijoca de despedida e no tiau.

*

Sábado. De manhã Mário estava no Bar Petisco jogando sinuca com o Bruno, quando a Cida, faxineira do escritório, lhe comunicou:

— “Alguém” falou pra você ir lá…

Ele foi com pouco entusiasmo, e como a Lílian estivesse em outra sala que não a principal (ele olhara pelo vitrô), voltou para o bar e para o jogo.

Às 10 e meia Lílian parou ao lado do bar e mandou um guri chamar o rapaz.

— O que você quer? — perguntou ele secamente.

— Eu queria te ver…

— Então já viu. Tiau.

— Você não quer me ver, né?

— Só te ver, não. Isso não me satisfaz.

— Que você quer que eu faça? — perguntou ela, desanimada.

— Nada. Estou é a fim de terminar com você.

— Pois eu não quero!

— Por que? Tem medo de alguma coisa? Não se preocupe: não vou contar a ninguém o que aconteceu entre nós. Aliás, não fizemos nada de mal…

— Não é isso, Mário. Será que você não entende? Eu queria que você estivesse no meu lugar…

— E eu queria que você estivesse no meu. Estou também cheio de problemas!…

— Nós não vamos brigar de novo, não é? — pediu ela carinhosamente, aproximando seu corpo do dele e procurando os seus lábios.

Naquele espaço entre as duas portas do bar, com uma arvorezinha à frente, eles se beijaram longamente.

— Depois do almoço você vai lá, tá? Hoje vou trabalhar o dia inteiro.

Ele foi lá às 2 e 40, mas a moça já havia saído.

*

Sexta-feira. Havia alguns dias que Mário saíra da República, já que se desentendera com um dos colegas. Conseguiu alugar uma sala com banheiro, que servira de escritório a um antigo depósito de bebidas, agora desativado. Havia uma entrada pela rua e outra entrada pelos fundos, rodeando o galpão. Era uma das poucas construções da quadra, e Mário constatou que poderia levar a Lílian para lá com relativa segurança.

Numa recaída provocada por esses pensamentos, ou que os provocou, Mário resolveu procurá-la para um ultimato: à noite, um encontro de verdade. Ela poderia sair na segunda aula, alegando dor de estômago. A cem metros da escola se encontrariam e depois, enfrentando um risco mínimo, entrariam pelos fundos no antigo escritório do depósito.

Na hora do almoço, entretanto, não conseguiu encontrá-la na rua (ele não pretendia ir ao escritório), e à tarde já não estava seguro do que fazer.

No sábado o plano voltou a tomar-lhe o espírito, mas novamente nada deu certo. Choveu o dia todo, e dessa forma os funcionários do escritório não se atreveram a sair para a parte externa nas horas de intervalo. À tarde pensou em parar defronte à casa de Lílian e chamá-la, primeiro com o intúito de lhe dar o ultimato, e à medida que o tempo passava e a chuva persistia, para uma longa conversa de desabafo e rompimento. O tempo passou ainda mais, a chuva continuou e os novos planos foram também abandonados.

Segunda-feira ele estava curado. Às 12 horas passou defronte ao escritório. A Lílian estava na calçada com outros funcionários, de costas para a rua. Alguém a preveniu e ela voltou-se com um sorriso tímido e esperançoso (a Cida certamente lhe contara da visita dele, no sábado, ao escritório vazio). Ele porém não parou, limitando-se a um aceno endereçado a todo o grupo.

Depois disso passou um dia por ela na rua, mas não parou o carro; ela também, percebendo a rapidez da aproximação, abaixou a cabeça.

*

Uma semana depois seu coração já esquecera os motivos para rompimento. Sentia saudades e não via inconvenientes em continuar a amizade (pois o namoro, na prática, virara amizade) pelo menos até o fim do ano. Surgiu a decisão de parar o carro no próximo encontro na rua.

Na tarde desse dia, cerca de 4 horas, estava sentado numa mesa do Bar Petisco, traçando um desenho qualquer num guardanapo de papel, quando a Estela, esposa do dono do bar, o chamou:

— Mário, vem cá um pouquinho, por favor.

Ele foi.

— Adivinha quem passou aí agora!

— Quem?

— Olha aí fora…

Ele viu, a uns 10 metros, a Lílian e a Marisa, paradas. Ao vê-lo, Lílian fez um aceno e ele disse à Estela, já saindo:

— Não resisto à tentação; vou bater um papo com ela…

As duas moças continuavam paradas. Marisa tirava um cisco do olho.

— Como é que vocês passam por aqui sem cumprimentar a gente, hem?! — disse ele alegre.

— Ué, nós não vimos o seu carro aí… — explicou a Lílian.

— É que eu o deixei agora há pouco na oficina, para uma regulagem.

Trocaram mais duas palavras e a moça animou-se a segurar a mão do rapaz. Como ele correspondeu, ela aninhou-se no seu peito. A Marisa “se interessava” por outra cena qualquer, e os namorados se abraçaram demoradamente.

Mário acabou seguindo com elas, a pé; iam até uma costureira, a algumas quadras dali. Na volta a Marisa tomou outro caminho e Mário não deixou de relembrar a Lílian que não via futuro para o namoro. Também não deixou de lhe dar um beijo demorado, quando se despediu dela, sob a proteção de uma arvorezinha.

*

Dias depois Mário resolveu encontrar-se com ela na volta ao escritório, depois do almoço. “Só para bater um papo”. Ligando o motor do carro 10 ou 12 minutos antes do meio-dia, sempre dava certo, e dessa vez foi também o que aconteceu: encontrou-a na metade do caminho. Ofereceu-lhe carona e ela aceitou. Tocou em assuntos triviais, à espera de que ela se manifestasse sobre a situação de ambos. Mas ela também esperava o mesmo do rapaz.

Pararam defronte ao escritório.

— Achou alguma solução? — perguntou ele.

— Ah, Mário! — disse ela com um ar displicente. — A solução é terminar; ou então a gente casar.

E depois de uma pausa:

— Casa comigo!

— Você quer casar?

— Quero.

— Li, eu vou falar com a Dayse.

— Nem pense nisso, Mário!

— Por que, Li? A gente tem que tentar um acordo com a sua família!

— Não vai dar certo; eles não querem acordo nenhum…

Ele propôs fugirem.

— Estou falando sério, Lílian!

Ela pareceu tê-lo levado a sério. Mas ele já mudara de ideia:

— Olha, Li, pra você a melhor solução é terminarmos. É mau negócio ficar comigo! Eu realmente estou perdido, mas você pode arranjar um outro cara e ser feliz!…

— Eu não quero ninguém; quero ficar com você.

— Lembrei de um verso do Kipling: “de crer em ti quando estão todos duvidando”. Pois agora eu é que estou duvidando de mim…

— Eu quero ficar com você, Mário!

Eles se beijaram e se despediram.

*

Sábado. Houve na casa do João uma festinha com o pessoal do escritório. Mário compareceu, a convite de Lílian. Ao chegar, depois dele, a garota não demonstrou alegria. Acostumado já com o seu “pouco caso”, o rapaz ficou no seu canto, sem lhe dar “muita bola”. Ela mudou de cara e o procurou. Alegou que estava com raiva porque sua mãe soubera que o moço estaria ali na festa. Estavam ambas de carona no carro do Nélio, que inadvertidamente tocara no assunto. “Você vai lá?” perguntara a senhora à filha, em tom de ameaça. “Vou!” respondeu a Lílian.

— Eu também estou chateado! — falou Mário.

— Por que?

— Está muito chato aqui. Eu poderia estar no meu novo alojamento, preparando-o para minha mudança…

— Quer ir, vamos!

— Você vai comigo?! Lá no alojamento?!

— Vou! — respondeu ela, decidida.

Sairam. Ainda indeciso e depois de algumas voltas, perguntou se ela topava mesmo ir com ele ao alojamento.

— Quero ficar com você num lugar sossegado… — disse ela.

Dirigiu o carro, então, para o prédio do depósito desativado. Parou o veículo nos fundos do terreno e abriu a porta. O proprietário do prédio ainda não retirara os móveis do antigo escritório (motivo pelo qual Mário ainda não trouxera a cama, o armário e outros pertences). Sentaram-se no sofá-sem-braços de sala de espera.

Ele abaixou as suas calças e logo a seguir a sua calcinha, enfiando um dedo na entrada de sua vagina. “Mário, Mário!” gemeu ela, aparentemente louca de desejo. Ele abaixou também a própria roupa. Só não tentou o coito porque tinha recém-terminado o tratamento de uma gonorréia, resultado do encontro com uma prostituta avulsa. Porém se acariciaram muito, com os corpos deitados lado a lado mas em direções contrárias. E ele acabou ejaculando enquanto chupava o clitóris da moça e ela manuseava seu pênis. Um jato de esperma atingiu a testa de Lílian, junto aos cabelos, e outro a sua sobrancelha. Ela ficou paralisada, esperando que ele a limpasse com um lenço. Depois disso se vestiram e saíram de novo para a festa, como se tivessem estado dando voltas de carro. Haviam ficado no alojamento uns 45 minutos.

*

No início de novembro a situação piorava. Ela não se decidia a enfrentar a família e ao mesmo tempo não queria terminar com Mário. O rapaz soubera, pelo Marcelo, que “um cara” vinha telefonando continuamente para a Lílian, propondo namoro.

Mário falou com ela, perguntando-lhe se queria terminar. Ela disse que não e que não tinha culpa de o cara “viver lhe enchendo a paciência”.

— Esse cara invocou comigo outro dia que eu fui lá na loja. É até ridículo! — protestou.

Mas ele começou a notar, nos dias seguintes, que ela andava inexplicavelmente alegrinha. Estava com ele (nos poucos minutos depois do almoço), estavam com grandes problemas a resolver, e ela se mostrava alegre, mas não pela presença dele. A conclusão do rapaz foi a de que a paquera lhe fazia bem, ela se sentindo valorizada.

*

Lá pelo dia 12 ele concluiu que não havia chance deles serem felizes, mas havia a de ele finalmente possuir a moça. À 1 hora, enquanto a transportava até a escola (a menina ia fazer estágio) propôs um encontro à noite. Falou claramente: iriam novamente ao “apartamento”, com toda a segurança, e lá se possuiriam.

— Vou pensar. — disse ela.

Na saída do estágio, às 4 e 30, ele voltou ao assunto:

— E então? A gente se vê à noite?

Ela manteve-se calada, abaixando a cabeça. Ele insistiu e ela argumentou que não estava preparada para isso.

— Você está preparada, Lílian! Com 18 anos, qualquer mulher está preparada!

— Mas eu não estou, Mário…

Ele continuou insistindo. Ela propôs:

— Por que você não casa comigo?

— Você quer casar comigo?

— Claro que quero…

— Olha, Lílian, eu topo casar contigo. O problema é a sua família; não seria bom começarmos uma nova vida com você brigada com eles.

Ela concordou. Ele propôs novamente falar com a Dayse, argumentando que era a única possivelmente sensível ao diálogo. Mas a Lílian apenas achou, de maneira definitiva, que não daria certo.

Por que não dá certo?

Não vai dar certo, Mário!…

Ele falou em terminarem. Ela contra-argumentou:

— Nossas vidas estão ligadas pra sempre, Mário!…

— Então mete comigo!

— Não posso…

Dirigiu o veículo até o local onde lhe dava antigamente aulas de direção. Parou um pouco e acariciou os seus seios. Ela quis voltar; não gostava de ficar se encontrando com ele às escondidas e nesses lugares. “Me dá um sentimento de culpa tão grande!…” Pediu-lhe para deixá-la no supermercado, procurando as ruas de menor movimento. Ao estacionarem ainda conversaram um pouco. A mesma conversa sem definição:

— O que você sente por mim? — perguntou ele.

Ela suspirou:

— Não sei…

Inesperadamente ela falou, num tom pouco acima do sussurro, como que a medo:

— Acho melhor a gente se separar…

Ele aceitou, a contragosto.

— … pelo menos por algum tempo… — prosseguiu ela em voz normal. — Quando eu achar uma solução eu te procuro.

— O orgulho não vai te impedir?

— Claro que não…

— Lílian, eu quero te beijar.

— Mas nós não terminamos?!

— Você falou em separação temporária… — argumentou o rapaz.

Beijaram-se. Ele ficou depois olhando o rosto da menina e viu como estava lindo.

— Eu te amo!

Passaram alguns segundos e ela abriu a porta do carro, subitamente apressada:

— Preciso ir. Tiau.

*

A pretendida separação temporária não se efetivou. Num sábado, conforme haviam combinado, a Lílian passou num certo ponto com a Marisa e uma mulher, e ele lhes deu carona até a costureira. Voltando de lá, só os dois no carro, e depois de um diálogo de desencanto, mais um monólogo dele, o rapaz convidou-a (sem muita convicção) a repetirem o feito do outro dia. Falou mesmo em “meter”, já que se sabia completamente curado da gonorréia. Ela topou.

Eram 5 e meia quando chegaram ao “apartamento”, que dessa vez já contava com os móveis trazidos da República. Mário começou acariciando os seios da menina, que estavam sem sutiã. Depois foram para a cama. Com ela sentada, suspendeu o seu vestido, tirou-lhe a calcinha, livrou-se das próprias calças e ajoelhou-se entre as coxas de Lílian. A região púbica da garota (ele sentiu com a dele) queimava. Fez com que ela estendesse uma perna, e alojou a cabeça do pênis entre os grandes lábios de sua vagina. Ia fazê-la deitar-se, para acomodar-se sobre o seu corpo e iniciar a introdução. Nesse momento, entretanto, a menina recolheu para trás os quadris, fechando as pernas e mantendo-se sentada.

— Não, não! — dizia ela.

Ele continuou na tentativa.

— Não, Mário, por favor! — disse ela apavorada.

— Não tem problema, Li. Eu não ejaculo dentro de você!

— Não, não! Está muito tarde! Quero ir embora!

— É só um minutinho, Li. Vou só enfiar e tiro. Só uma vez!

Ela continuou pedindo por favor e então ele deixou de insistir:

— Então me acaricia!…

Ela assim o fez. De pé e de frente para ela, nu, ele acabou ejaculando em seus seios (o vestido, levantado e com a parte de cima desabotoada até o umbigo, também a deixava praticamente nua).

Desta vez não ficaram no “apartamento” mais do que 15 minutos.

*

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