24 – Desenlace

O impasse continuava. Havia solução, mas faltava coragem para efetivá-la. Do lado do rapaz sobravam dúvidas e inseguranças.

Mário tinha resolvido ficar um bom número de dias sem procurá-la, mas resolveu, às 11 e 45 de uma quarta-feira, encontrar-se com ela. Como à noite haveria sessão de cinema promovida por uma turma de formandos, perguntou-lhe se ela ia.

— Não… Nós vamos ter reposição de aulas. Você vai?

— Eu queria mesmo era encontrar-me com você…

*

Quarta-feira seguinte. Quando Mário ia deixando o restaurante para voltar às suas atividades na firma, recebeu de um garoto do escritório uma carta da Lílian. Ela dizia o seguinte:

*

Passolerim, 26/novembro

Mário.

O Sol ilumina a manhã sem nenhuma alegria.

Senti os raios luminosos penetrarem meus olhos adentro como se quisessem atingir meu cérebro, onde rumina um mareado de ideias ilusórias.

A fantasia dos sonhos de criança vai aos poucos se distanciando, levada pelo tempo que passa como um vento forte.

E nesta manhã ensolarada eu estou tremendamente triste.

Sabe, Mário, não sei o que anda acontecendo com a gente. Sinceramente, procurei um pouco de luz no meio das trevas e não encontrei.

Fiquei sabendo inclusive que você levou um papo com o meu amigo Marcelo, e ele contou-me simplesmente o caso por cima e eu gostaria realmente de saber o que foi que você falou e vice-versa.

Quanto à Discoteca (sábado à noite), não se preocupe; também já estou por dentro do caso inclusive da sua fonte informativa que me procurou para infernizar a minha vida e a sua.

Não gosto de disse-que-disse, vamos por tudo em pratos limpos:

Primeiro, eu estava dançando realmente, mas com meu irmão.

Segundo, eu nem notei que esse fofoqueiro que foi te contar estava lá.

E em terceiro, ele não tem nada com a nossa vida.

Mário, é natural que você não confie em mim, mas eu preciso de você. Não sei, é como se você fosse a base da minha vida.

Eu sinto uma enorme vontade de amar você e nesse momento um tremendo desejo de te fazer sofrer.

Quando estamos juntos, sinto a necessidade de vê-lo triste, e quando estou longe sinto-me como se estivesse perdida, sinto que sem você não sou ninguém.

Te amo, e ao mesmo tempo eu não te amo, te quero e ao mesmo tempo estou confusa.

Preciso realmente procurar o tal psiquiatra.

Lílian.

Obs- Não olhei p/ você na hora do almoço porque você estava acompanhado. Quem era a bela mulher?

*

Ele escreveu uma resposta igualmente extensa. Iniciou com “Querida Amiga Lílian” e fez um resumo do inócuo diálogo que tivera dias antes com o Marcelo. Opinou depois que ela precisava de uma surra, e não de um psiquiatra; devia assumir a sua maturidade, começando por resistir à opinião dos outros. Deu a seguir uma interpretação do seu desejo de feri-lo. É que ele a teria feito perder a inocência do “mundo luminoso” (Demian, Hesse) atirando-a ao assustador “mundo sombrio”. O assunto da discoteca e da fonte informativa deixou para discutir pessoalmente, “amanhã, quando você estiver voltando do almoço”. Quanto à “bela mulher que o acompanhava”, seu nome, um tanto inusitado, era “Encosto para Cabeça do Banco do Passageiro”.

Ele quis encarregar algum menino de fazer a carta chegar às mãos de Lílian. Não o encontrando, foi entregá-la pessoalmente. Acercou-se do vitrô do escritório mas a menina, ao vê-lo, dirigiu-se à porta.

— Oi! — disse ele. — Tudo bem?

— Tudo bem! — respondeu ela. E ansiosa:

— Você não está bravo comigo?

— Não…

Ela foi aninhar-se ao peito do rapaz, mas vendo que ele não correspondia voltou um passo atrás. Ele entregou-lhe o envelope lacrado, fazendo menção de voltar ao carro.

— Fica um pouquinho comigo! — pediu carinhosa.

— Não posso; estou em serviço.

— Só mais um pouquinho! Quero falar com você…

— Aí — disse ele apontando para o envelope — Aí eu estou respondendo à sua carta. Amanhã a gente se fala.

— Amanhã não interessa!…

Mário não deu importância à sua reação, pois na mensagem havia a proposta de encontro.

— Tiau! — disse ele, levando a mão ao rosto de Lílian, que se mostrava amuada e surpresa com a resistência do rapaz.

— Você vai ter que me explicar muita coisa! — intimou ela enquanto ele se afastava para o veículo.

À noite Mário analisou, analisou, e lhe veio a decisão de faltar ao bate-papo proposto para o dia seguinte. Em seu lugar iria esta nova mensagem, redigida antecipadamente:

*

Amiga Lílian.

Recebi tua carta ontem às 15 horas. Até aquele momento eu nada sabia sobre a discoteca do último sábado. A fonte não jorrou nenhuma informação; portanto, não gaste a sua raiva com pessoas inocentes. Fiquei sabendo que você foi e dançou, pela sua própria carta. Que você dançou com outros que não o seu mano, concluo agora e por conta própria.

Estou curioso pra saber a quem você chama de fofoqueiro. Estou curioso pra saber onde ele te procurou e o que disse. Entretanto, deixa pra lá. Deixa pra lá também a dança-com-outros-que-não-teu-mano. O que importa é que estamos separados desde o dia 12, por proposta sua. Meu objetivo atual é apenas deter a minha queda pela escadaria do ridículo.

Não te procurei hoje exatamente por causa disso: é sempre o “idiota apaixonado” que procura a mulher bela e fatal; pelo menos é o que conclui quem observa nossos movimentos. Isto não quer dizer que eu pretenda que você me procure. Nada disso; quero que você me esqueça e continue procurando a felicidade. É o que tentarei fazer depois de muita fossa.

Voltarei aos meus gurus, Dostoiévski e Hesse. Quero, como Kólia Krasótkin, “consagrar-me por inteiro às ideias e à vida real”, muito embora saiba que “minha reputação está feita: dizem que sou um maluco”.

27 de novembro, 12 hs.

Mário.

*

No dia seguinte, mais ou menos às 15 horas, ele recebeu por um portador a resposta de Lílian à mensagem acima:

*

Mário.

Amanhã será um lindo dia, todas as tristezas se dissiparão, e faremos de conta que tudo foi um pesadelo.

Não te procurarei, se é isso que quer, mas em cada amanhecer encontrarei um pouco de você.

Esse mesmo sol que brilha intensamente para todos, fará parte essencial do meu mundo porque poderei aquecer-me neste mesmo sol que te aquece.

Em cada gesto, em cada palavra, existe um pouco de você.

Em cada caminho que cruzar lembrar-me-ei de você.

Mário, um dia nós quase nos cruzamos no espaço, no entanto a sua subida foi mais galopante que a minha e então nos desencontramos.

Talvez seja tarde para chegarmos a essa reconciliação, mas como diz um provérbio, as pessoas só dão valor às coisas depois que as perdem, e comigo foi assim, mas também diz que a gente deve amar as pessoas sem se apegar a elas.

E eu como sou idiota me apego demais às coisas materiais e também às sentimentais.

Dizer adeus. É muito triste essa palavra. Até logo talvez faça melhor ao meu coração.

O destino quer nos separar; você não irá lutar contra o destino.

Nossas vidas estão erradas, nosso amor nasceu errado; sou culpada disso? Não, não creio.

Sou simplesmente “eu”, sem convicção e sem objetivo, sem certeza de querer alguma coisa.

Eu só te peço: Mário, não se esqueça nunca de sorrir, pois a vida é bela.

Sua amiga

Lílian.

Obs.- Creia-me: estarei sempre à sua espera; volte quando quiser.

*

Na primeira quinta-feira de dezembro Mário recebeu as dezenas de fotos que tirara na festinha da casa do João. Na manhã seguinte, às 8 horas, foi ao escritório para entregar alguns contratos. Quando chegou não viu a Lílian. Começou então a mostrar as fotos para as outras meninas, que se reuniram em torno dele, acotovelando-se.

Percebeu de repente a presença da Lílian, do outro lado do grupo e como que escondida. “Oi” disse ele. “Oi” respondeu ela, com uma expressão estranha, meio envergonhada.

Ela sentou-se em sua cadeira, demonstrando pouco interesse pelas fotos. Mário tirou então do bolso o pequeno álbum com aquelas (umas 10) em que Lílian aparecia, e aproximou-se de sua mesa: “São suas.”

Enquanto olhavam as fotos, ele fazia comentários sobre uma ou outra.

— Está enjoado da minha cara? — disse ela, maliciosa, fazendo alusão a que ele não ficara com nenhuma das fotos.

— Não — respondeu ele, sem perceber a alusão.

Pouco depois ela repetiu a pergunta e ele a resposta. Mais alguns momentos e ela, agora de pé junto ao grupo que folheava o álbum maior, disse qualquer coisa inócua para ele, como nos velhos tempos.

Com ela desinteressada, não surgiram novos assuntos. Mário entregou-lhe os contratos e ela, voltando à sua cadeira, chamou a Fernanda para que os arquivasse.

*

Epílogo

*

Depois de 10 dias sem vê-la, Mário começou a receber insistentes informações de que Lílian fora vista mais de uma vez, por mais de uma pessoa, ao lado de um outro rapaz.

Mário não procurou conferir a veracidade dos informes. Estava cansado de tudo e um dia, após uma conversa com o gerente da empresa, que mostrou total compreensão, viajou para Porto Pernilongo, a 150 quilômetros dali, onde iria aceitar a proposta de emprego de outra madeireira.

Não voltou mais a Passolerim, e com o tempo, que é o melhor remédio, livrou-se da obsessão por Lílian e do correspondente sofrimento. E acabou encontrando Alice, filha do proprietário da madeireira, que voltava de estudos realizados na Capital.

Moça mais madura e de uma doçura incomum, era a companheira que Mário precisava para equilibrar-se existencialmente, aprendendo as fáceis (mas para ele até então difíceis) convenções do relacionamento social. Ela, por sua vez, garota certinha demais, precisava de um pouco de cor na aquarela de sua vida. Mas esta é uma outra história…

*

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FIM DA NOVELA LOUCOS DESATINOS, LEDOS DESENGANOS

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