3 – Dúvidas e Beijos

No sábado seguinte era aniversário de Milton, adolescente taciturno e às vezes de mau gênio. À noite, além do grupo do domingo anterior, estavam presentes o irrequieto irmão caçula e as colegas Maristela e Elaine. Houve o “parabéns a você” e a seguir o corte do bolo, os refrigerantes, a música do tocadiscos e a conversa generalizada. Lílian ocupava-se das colegas, enquanto Mário e Nélio participavam da conversa de um grupo maior.

Às dez e meia a reunião se esvaziara sensivelmente. Júlia e Nélio, com os irmãos Tadeu e Yasmim, conversavam sobre pescarias e bronzeamentos às margens de córregos cristalinos. Mário e Lílian, num sofá mais afastado, podiam arrulhar tranquilamente.

— Sabe que eu tenho medo de me apaixonar por você? — dizia ela.

— Por que você tem medo? — quis saber Mário, sonhador.

— Não sei… Tenho medo de sofrer de novo…

— Você então já sofreu por amor?…

— Já… Um namorado meu…

— E o que ele fez de errado?

E percebendo que a pergunta era direta demais:

— O que é preciso fazer para que você não sofra?

— Ser fiel…

— Quanto a mim, você não precisa ter medo, Bobinha! Acho complicado demais namorar duas meninas ao mesmo tempo!

Isto pareceu sossegá-la, e trocaram ternos beijos.

— A gente vai se ver amanhã? — perguntou ele mais tarde.

— Droga! — disse ela, lembrando-se. — Não vai dar. Eles querem que eu vá ao piquenique da Associação.

— Eles, quem?

— Minha mãe, a Júlia, todo o mundo. Todo o mundo manda em mim nesta casa! Quando eu completar 18 anos, quero ver se…

— Mas não há por que se preocupar, Li — disse o rapaz, frisando a informação que ela acabara de passar. — Quando você completar 18 anos, tudo vai dar certo!

Ela sorriu, divertida, pois no primeiro encontro havia dito já ter 18 anos.

— Minha fonte de informações estava certa! Em setembro você completou 17 anos, não é?

Ela confirmou e ele a chamou de mentirosa.

— Me diz uma coisa: você se lembra daquela vez que eu viajei para Cessilva?

— Ahan!

— Se lembra que você andou falando no escritório que eu “já ia tarde”?

— Eu estava chateada, Mário! Por causa de minha mãe: estava a toda hora enchendo o saco, dizendo que eu era muito criança pra viver namorando…

— E agora?

— Agora ela nem liga mais. Falou só que é pra eu ter juizo…

— E você tem juízo?

— Tenho. Sabe, Mário? Naquele dia em que você veio a primeira vez, ela disse que simpatizou com você…

*  *  *

No domingo, às 7 e 25, na área, Lílian recebeu Mário com um beijo ardoroso.

— Estava com saudade de você! — disse ela.

— Eu também! — disse Mário, enquanto se abraçavam.

— Como eu posso saber se isto é verdade? — brincou ela.

— Ué, se eu não estivesse com saudade teria atrasado uns cinco ou dez minutos!

— Vamos ver se você chegou na hora certa… Humm! chegou um pouco antes!

Foram para a sala, onde estavam Nélio e Júlia, os dois irmãos de Lílian e um outro rapazinho. Ficaram algum tempo diante do aparelho de televisão.

— Mário! — disse Júlia. — Vocês topam ir com a gente à casa da Yasmim? Vamos jogar cartas…

— Depende da “madame” aqui…

Lílian, entretanto, não parecia entusiasmada com a ideia e não se definiu. Sua irmã, impaciente, acusou:

— Hoje à tarde nós combinamos e ela topou ir, Mário. Falta só você pra decidir.

O rapaz voltou-se novamente para Lílian.

— Está bem! — disse ela, irritada com a irmã. — Podem ir que nós vamos daqui a pouco.

Com a saída do casal e dos rapazes, Mário e Lílian ali ficaram trocando beijos e doces palavras. Finalmente tiveram de parar.

— Sai por aqui, Mário! Eu fecho a porta e saio pelos fundos.

— Não tem mais ninguém na casa?

— Não; minha mãe, meu pai e a Dayse foram para Cachoeiras. É porisso que essa cretina da Júlia não quer desgrudar da gente!

A casa de Yasmim era perto e resolveram ir a pé. Quando chegaram, Júlia estava esperando no portão, irritada.

— Pensei que vocês tinham se perdido pelo caminho!

Na casa de Yasmim, o movimento se concentrava na cozinha e na área dos fundos. Os dois namorados instalaram-se no sofá da sala e ali ficaram arrulhando. Logo, porém, chegaram Júlia e Nélio, e o encanto se desfez.

Instalou-se o jogo de pif-paf, com três pares disputando. Lílian mostrou-se alegre e interessada, mas embora Mário lançasse de vez em quando um olhar provocador, ela não correspondia.

Às onze horas os dois casais voltaram para a casa. Ali defronte, na noite escura, Mário e Lílian se beijavam. A mão do rapaz passeava sob o sutiã, pressionando os seios levemente. Os lábios da moça queimavam. Mas chegou o momento em que suas mãos afastaram o corpo de Mário e ela decidiu não continuar. Cruzou os braços; mostrou-se fria. Depois disso sentaram-se no carro por algum tempo, conversando (sem encanto) e beijando-se (sem calor). À meia noite se despediram. Novamente alegre, ela perguntou:

— A gente se vê amanhã?

*

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