5 – Rompimento

Segunda-feira, na hora do almoço, ao voltar da firma, Mário avistou Lílian e Solange. Depois de uma hesitação momentânea, já que desde o encontro da noite anterior estava mergulhado em brumas, parou o carro junto delas. Teve a impressão de que conversavam sobre o caso, e sentiu-se ferido pela disposição de espírito de Lílian, para ele excessivamente alegre e confiante. “Um ar de superioridade”, interpretou ele mais tarde.

— Posso dar uma carona a vocês?

Solange brincou:

— Pra mim, não, Mário; preciso andar a pé para manter o peso.

— Tá legal. Aceita uma carona, Dona Lílian?

— Mas estou quase chegando!…

— Ué, não faz mal. Você economiza cem metros…

Defronte à casa, Mário perguntou:

— O que vai fazer hoje à noite?

— Acho que vou ter de ir ao escritório.

— E amanhã à noite?

— Nada…

— A gente se vê?

Ela esperou um momento antes de responder:

— Pode ser…

*

Quando chegou à porta da sala, Mário foi recebido por Júlia.

— A Lílian está se trocando e já vem. Entre, Mário!

O rapaz entrou, cumprimentou os pais da moça e ficou esperando.

— Que calor, hem, Dona Luci?

— É mesmo, né? — respondeu ela, sorridente. — Está calor demais!

— E o senhor, Seu Paulo: muito trabalho, hoje?

Ele sorriu, cordial e constrangido, como se isto por si só constituísse uma resposta.

Ao cabo de alguns minutos Mário pegou um livro que estava sobre a mesa de centro e começou a folheá-lo. Paulo e Luci, apesar dos sorrisos cordiais, não se interessaram em manter uma conversação, permanecendo concentrados na tela do aparelho de TV.

Lílian apareceu, com um vestido jeans de alças; dispensara a blusa. Sentaram-se na varanda, em duas cadeiras rodeadas de samambaias.

— O que você fez hoje? — quis saber ela.

— Quase nada; estou há dias tentando contacto com um fazendeiro, que mora em outro Estado. E você, o que fez de bom?

— Deixa eu ver… Ah, hoje à tarde eu fui ao Quico!

— Fazer o quê?

— Tomar sorvete com as colegas do escritório!…

Após uma pausa, Lílian falou:

— Minha mãe está brava de novo.

— Com você?

— Não; desta vez é com a Júlia. Vê se é possível: deu 30 dias de prazo pra ela terminar o namoro com o Nélio. Acho que desta vez minha mãe exagerou…

Mário não quis aprofundar o tema, e Lílian ficou preocupada.

— O que você está olhando?

— Estou vendo as nuvens; parece que vai chover…

— Estou te achando muito pensativo, hoje.

O rapaz continuou observando a nesga de céu.

— Parece que hoje você não está legal…

— Não; não estou bem…

Lílian estendeu a mão até o rosto do rapaz e começou a acariciá-lo. Após um momento ele reagiu, e os dois ficaram com as mãos entrelaçadas.

Mário viu que teria de falar.

— Você encontrou-se com o Sérgio hoje? Ontem?

— Não; por que?

— Nada…

— Eu não disse que terminei com ele? — admoestou Lílian.

— É, mas eu não confio mais em você. No nosso primeiro encontro você também disse que tinha terminado, e no entanto…

— Mas eu tinha terminado, mesmo!

— Lílian, eu acho que não dá pra continuar…

— … Por que você acha?

— Não sei… Esse rapaz: você gosta dele, você o ama. Acho que você devia… Não sei…

Lílian não sabia o que dizer. O rapaz prosseguiu, agora mais decidido:

— Sabe que eu fui um perfeito idiota, desde o início? Acreditei que você levasse o namoro a sério, apesar do seu comportamento no escritório…

— Eu sei que você tem razão de estar magoado… — murmurou ela cabisbaixa.

— Ontem, quando eu te propus um encontro, você respondeu: “Pode ser…” Quer dizer, você ia fazer o enorme favor de se encontrar comigo…

— Mas isso é só um modo de dizer, Mário. Não quis te ofender!

— Pois eu não acho que foi apenas um modo de dizer. Você mostrou exatamente o que estava sentindo.

Os dois mantiveram-se calados por alguns momentos. Depois Mário murmurou:

— Se eu pudesse voltar atrás no tempo, não daria aquele telefonema…

Seguiu-se um longo silêncio.

— Posso lhe perguntar uma coisa? — recomeçou Lílian.

— Claro que pode…

— Você disse que se pudesse voltar atrás não daria aquele telefonema… Você se arrependeu também das vezes em que esteve comigo?

— Não sei, Lílian. Esses abraços, esses beijos, esses encontros foram bons. Mas faltou muita coisa pra ser um namoro de verdade…

Eram 8 horas e não havia como prolongar a conversa. Mário levantou-se.

— Bom, tenho que ir…

E tocando nos cabelos de Lílian com o dorso da mão:

— Tiau…

*

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