6 – Quermesse e Baile

Na manhã seguinte, parecia que Mário ia absorver bem a nova situação. Ao acordar, ligou o rádio num programa musical; sentia-se alegre e bem disposto. Depois do meio-dia, entretanto, começou a perceber um vazio que logo foi preenchido por negros pensamentos. À noite jogou cartas com os colegas, na República, mas sentindo uma repugnância visceral por tudo o que não fosse a sua dor.

— Pô, Mário! — reclamava o Jorge. — Assim não dá: a gente não consegue fazer nem 1 canastra!…

O estado depressivo persistiu pelos dias seguintes; ia, entretanto, se atenuando aos poucos. No sábado o rapaz foi com Jorge à casa do casal Madelei.

— E a Lílian, Mário? Você terminou mesmo com ela? — perguntou Verinha.

— Terminamos…

— Mas parece que você ainda não saiu da fossa…

— Calma! — brincou ele. — Também não é assim, de uma hora para a outra, né? Estou quase bom; mais dois dias e estarei pronto para outra…

Nesse momento chegou Barreto, pai da jovem senhora. As conversas iniciais, contudo, não prosperaram, e daí a pouco todos os homens estavam empenhados em distrações solitárias: Jorge folheava uma revista, Barreto lia as manchetes de um jornal e Mário bebericava o uísque que Gilberto, o marido de Verinha,  acabara de servir. A um comentário de Barreto sobre um incidente entre índios e fazendeiros, em algum canto do Brasil, iniciou-se uma discussão entre sogro e genro, que adotavam posições políticas opostas. A conversa, com a intromissão de Mário, ia tomando um rumo perigoso, e então a Verinha interveio:

— Olha! A discussão está pegando fogo, mas a comida já está na mesa, e esfriando!

— A Verinha tem razão! — falou Jorge. — Vamos almoçar, que o cardápio hoje é especial!

Depois do almoço, Barreto resolveu tirar uma soneca. Os outros acabaram combinando ir, naquela noite, à quermesse e ao baile, ambos em benefício da construção da igreja.

De volta à República, Mário sentiu-se com suficiente coragem e isenção para perguntar à empregada o que Lílian “tinha dito” nos últimos dias. É que a irmã dela também trabalhava no escritório.

— Ah, Mário! Minha irmã me conta as coisas, mas não quer que eu espalhe!…

— Deixa de bobagem, Crioula! Afinal, você é minha amiga ou não é?

Maria não respondeu, saindo para outra peça com a vassoura na mão. Mas pouco depois, ao passar defronte à porta do quarto, resolveu contar:

— A Lílian disse que está muito nova para casar, Mário!

— Essa não! — comentou o rapaz. — Quem falou em casamento?!

— Ela está arrependida de ter te dado os canos…

— Verdade?

— E está brava com a mãe dela…

— Por que?!

— Ué, brigou com ela quando vocês começaram a namorar, e agora briga porque a Lílian terminou…

— Interessante, isto!

— Volta pra ela, Mário!

— De jeito nenhum! Posso sofrer como um cachorro, mas não dou o braço a torcer…

*  *  *

Às 8 horas Mário e Jorge sairam para a quermesse.  Lá se encontraram com Gilberto e Verinha, e o grupo optou por beber e “comer alguma coisa”. Ocuparam uma mesa e pediram refrigerantes e salgadinhos. Não demorou e a Júlia apareceu na barraca, pois fora designada a trabalhar pela quermesse. Ao ver Mário, aproximou-se dele e segredou:

— Mário, a Lílian quer falar com você.

E em seguida:

— Você trabalhou, hoje?

— Não…

— À tarde ela queria telefonar pra você. Não sei se telefonou. Você vai ficar para o baile?

— Nós vamos.

E Júlia reforçou, antes de se afastar:

— A Lílian quer falar com você.

Pouco depois Lílian chegava à barraca, juntamente com Dayse. Mário estava de costas para a entrada, mas Gilberto preveniu:

— Ela está aí, Mário! Não tira os olhos de você!

— Parece que quer te engolir! — ajuntou Verinha.

Mário voltou-se, mas não conseguiu surpreender o olhar da moça.

Às 10 e meia, depois de voltarem à casa e à República, os quatro entraram no salão de baile. Júlia, que agora servia como garçonete, não tardou a avizinhar-se da mesa, dizendo a Mário:

— A Lílian está pra chegar!

Meia hora depois, realmente, ela passou pelo espaço de circulação, com um cigarro e um ar confiante, mas sem olhar. Jorge achou-a “visivelmente chateada, sem graça”. Mário não concordou com essa interpretação, ressentindo-se por não haver recebido nem um cumprimento ligeiro da garota.

Mais algum tempo, e Júlia de novo se aproximou.

— Olha, além de garçonete eu também sou recadeira. A Lílian falou pra você ir lá na mesa dela. Quer vir comigo?

O rapaz levantou-se e acompanhou Júlia.

Ao chegar, cumprimentou Dayse, outras pessoas que estavam à mesa, e finalmente Lílian, sentando-se ao seu lado. A conversa, na mesa, prosseguiu normalmente, mas o diálogo entre Lílian e Mário não aconteceu, com cada qual esperando que o outro tomasse a iniciativa. A moça, de repente, tornou-se extraordinariamente loquaz, contando um caso interminável à sua colega da esquerda, uma nissei gordinha. Quando surgiu uma pausa, Mário falou:

— Li, você vai demorar pra sair?

— Não; vou daqui a pouco.

— Eu vou ficar com a turma ali na outra mesa, tá?

Passou quase 1 hora e a garota não aparecia.  Como os colegas se preparavam para ir embora (Verinha estava grávida de 4 meses), Mário resolveu voltar à mesa de Lílian, curioso para ver se ela não estaria dançando. Pois não demorou e ela apareceu com Ricardo, um colega do seu grupo. Depois explicou, sem que Mário perguntasse, que dançara uma valsa com o rapaz como treino para o dia da formatura.

Passaram algum tempo juntos, sem que ela tocasse no assunto. Afinal Mário falou:

— Li, os outros estão para ir embora, e eu acho que vou com eles. Você vai demorar muito para sair?

Ela balbuciou alguma coisa, levantou-se e pediu-lhe que a seguisse. Sairam do salão.

Lá fora, Lílian colocou-se bem próximo de Mário, e de cabeça baixa, quase tocando o queixo do rapaz, começou:

— Mário, estive pensando muito nestes dias, e vi que não posso ficar longe de você…

— Verdade? — disse o rapaz, entre acanhado e feliz.

— Eu não estou pedindo pra você voltar, Mário! Mas eu queria que você soubesse disto…

Nessa altura, inconscientemente, ainda mais se aproximaram; os lábios do rapaz tocavam levemente os cabelos da garota. Sairam andando, devagar, por entre as barracas quase desertas. Então as últimas resistências foram quebradas e os dois se beijaram

Pouco depois, desfeito o encanto inicial, Mário perguntou:

— Agora que nós voltamos, tudo vai continuar como antes, não é? Você vai continuar dizendo “pode ser…”, “não sei…”

— Claro que não! — disse ela alegre.

Novamente se beijaram.

— Me contaram que sua mãe ficou brava porque nós terminamos. Será que não foi isto o que te influenciou a voltar?

— Claro que não!

E em seguida, rindo:

— Quem foi que te disse isto?!

— Não posso falar…

— Ah, agora você me deixou curiosa! Fala quem foi!

— Não posso entregar a minha fonte!…

Ela não insistiu e Mário continuou, brincando:

— Como você é mal educada, hem? Ontem no escritório eu te falei “bom dia” e você abaixou a cabeça. Estava com tanta raiva assim?

— Não era com você, Mário! Era problema de serviço…

E em seguida:

— Parecia que você é que estava com raiva…

Ali, ao relento, não estavam à vontade, e os assuntos começaram a rarear. Mário propôs irem até o carro para ouvirem música, mas ela não quis, porque sua mãe, que ainda estava numa das barracas, decerto os tinha visto passar. Ficaram ali ainda um pouco.

— Você podia me ensinar a dançar, né?

— Então vamos lá pro salão! — disse ela, com alegre boa vontade.

— Ah, aí não dá!…

— Então tem que ser sozinhos? — indagou ela, como quem anota um pedido. — Na minha casa?

O rapaz concordou.

Encaminharam-se para o salão. Ao entrarem, já não estavam de mãos dadas; Lílian ia na frente, como quem se apressa, e o rapaz a seguia.

Sentaram-se lado a lado. O braço de Mário se apoiava no encosto da outra cadeira, alcançando o ombro direito da moça. Olhavam o baile, olhavam Júlia e Nélio, que depois de uma rusga se haviam reconciliado. Lílian apoiava a cabeça no ombro do rapaz, e assim ficaram por um bom tempo. O baile ia se animando mais a cada seleção. A menina de repente propôs, entusiasmada, pronta para levantar-se da cadeira:

— Vamos dançar ?

Mas o ânimo de Mário não era suficiente para vencer a inibição.

— A gente fica lá no meio! — insistiu ela.

A nova negativa do rapaz a deixou visivelmente contrariada. Mas pouco depois a irritação desaparecia.

Num certo intervalo apareceu um fotógrafo e disparou seu flash na direção do outro casal, depois de um animado e brincalhão “tira-não-tira”.

— Agora eles dois! — disse Júlia.

Mas Lílian não quis. Nem a repetida insistência dos demais conseguiu vencer sua obstinada resistência. Afinal o fotógrafo desistiu, mas Mário sentiu-se rejeitado pela companheira. Não procurou esconder o seu descontentamento. Deixou a mão permanecer inerte nas vezes em que Lílian a procurava para acariciá-la. Nesses momentos a moça o fitava, a medo, mas o rosto de Mário permanecia fechado.

Passou um bom tempo antes que Mária resolvesse voltar às boas com Lílian, como quem de repente acorda de um sonho mau. As mãos se encontraram e se acariciaram. Com o outro casal fazendo o mesmo, sentiram-se à vontade para colarem os rostos e se beijarem. Mas os lábios da moça, embora chamassem os de Mário, estavam passivos, sem desejo.

Às 3 e meia o baile terminou. Lá fora estava frio e por várias vezes, enquanto esperavam Dayse e o outro casal, os dois colavam seus corpos num abraço, agasalhando-se mutuamente.

Seguiram todos para o carro de Mário. Lílian encostou a cabeça no ombro do rapaz, e ele acariciou sua face com a mão livre.

Defronte à casa, quando os outros já haviam descido, ainda ficaram no carro, beijando-se demoradamente. O rapaz acariciava os seios protegidos pela blusa colante.

Júlia já havia chamado a menina para entrar, e tiveram de se despedir. Mário tinha decidido que não lhe perguntaria quando voltariam a se encontrar. Ela, porém, se interessou e propôs, alegre:

— Amanhã a gente se vê, né?

À mente de Mário veio um irônico “Pode ser…”, mas acabou dizendo:

— Tá legal! A que horas?

— À hora que você quiser!

Beijaram-se de novo, e quando ela rodeou o carro para entrar na casa, Mário a chamou para mais um beijo.

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