7 – Um Novo Adeus

Depois que se separaram, aconteceu como no dia da conversa sobre o casamento: a mente de Mário foi assolada por dúvidas insistentes e pensamentos cruéis. Voltou a se preocupar com o encontro clandestino dela com o ex-namorado, e o episódio com o fotógrafo só fez piorar os seus temores.

Na manhã seguinte, domingo, como a crise persistisse, não escondeu do colega de quarto a luta interior em que se debatia.

— E então, tudo bem? — perguntara Jorge com ar bonachão.

— Tudo mal. Acho que esse namoro não tem futuro nenhum…

— Mas por que, Mário? Você não gosta dela? E não foi ela quem quis voltar?

— É verdade, mas há uma confusão tão grande que só o diabo pode entender. Às vezes eu acredito que ela “está a fim”; mas daí a pouco parece que não está. Não sei…

— E se você conversasse com alguma colega dela? Eu gostaria de ajudar, mas estou por fora da situação…

Após um momento, Mário lembrou-se de alguém:

— Acho que vou falar com a Solange. Quer ir lá comigo?

Como nenhum dos dois sabia o endereço da moça, foram até a casa de Marisa, outra funcionária do escritório, para se informarem. Ela morava nos fundos de um salão comercial da avenida. Mário desceu do carro, enfiou as mãos por entre as grades do largo portão e bateu palmas. Pouco depois, chamada por uma senhora que devia ser a sua mãe, a menina apareceu. Era pequena, magra, de traços fisionômicos incomuns mas delicados e extraordinariamente cativantes. Usava óculos, pois era um pouco míope. A cinco passos do portão, após enxugar as mãos no avental, seu rosto se abriu num sorriso:

— Quer me ajudar a lavar roupa?

— Estou um pouco destreinado!…

Com a informação de Marisa, os dois dirigiram-se à casa de Solange.

— Sabe que antes de ser fisgado pela Lílian eu estive interessado nessa menina? — disse Mário.

— Mas ela não é tão bonita quanto a Lílian!…

— Tá certo, mas tem qualquer coisa que me cativa. Você reparou que ela não tirou o avental para vir ao portão?

— Do carro não deu pra ver. Mas vem cá: essa Solange é amiga íntima da Lílian?

— Bom, pelo menos eu acho que está bem por dentro dos problemas dela…

Pouco depois estavam defronte à casa da Solange. Mário preferiu não entrar, ficando no portão.

— Olha, Mário, a Lílian de fato está arrependida de haver terminado o namoro. Mas eu falei pra ela que pensasse bem antes de tomar qualquer nova decisão…

— Pois é, no baile de ontem nós reiniciamos o namoro. Eu estava lá com os colegas e a Júlia veio me dizer que a Lílian queria falar comigo. Nós conversamos e decidimos recomeçar.

— Bom, ela deve ter pensado muito antes de decidir…

— Acontece que eu ainda estou na dúvida. O que há entre ela e esse tal de Sérgio? Você sabe?

— A Lílian sofreu muito nas mãos desse rapaz, Mário. Mas eu acho que algumas colegas dela estão procurando influenciá-la para que ela volte pra ele.

— Devem ser a Elaine e a Maristela. Elas nunca foram mesmo com a minha cara…

— Você sabe como são as mulheres, Mário (eu mesma já fui assim): se o rapaz maltrata, faz pouco caso, quer ser o Bom, aí é que a gente se prende a ele. Mas quando ele é bom, é compreensivo, a gente não dá valor… Esse Sérgio é o tipo do moço nojento, que quer ver todas as meninas ao pé dele…

— No outro sábado ela se encontrou com ele num casamento. Não sei se ela te contou.

— Ela contou. Aliás, a Dona Luci a tinha proibido de convidar você para ir com eles nesse casamento…

— Mas então ela é mesmo contra mim? Pô, eu chego lá e está tudo bem, ela me cumprimenta alegre!…

— Essa gente tradicional e decadente é assim mesmo, Mário. Ninguém é suficientemente bom para os filhos deles… Eu falei pra Lílian: “você precisa enfrentar a sua mãe!”…

— E o que você acha que eu devo fazer?

— Eu acho que você deve ir lá hoje à noite e namorar normalmente. Mas na hora de se despedir você põe ela contra a parede: dá um prazo pra ela resolver se gosta ou não gosta de você…

— Tá legal; eu vou fazer assim.

— A Lílian é uma menina muito problemática, Mário. Está muito confusa, até porque se deixa influenciar facilmente pelo que os outros dizem…

De novo no carro, Mário satisfez em parte a curiosidade do amigo, contando-lhe sobre a proposta de Solange. Mas já não estava certo de que iria segui-la.

— Mário, eu não quero me imiscuir no seu problema, mas ontem o Severo comentou comigo: “Essa menina não serve para o Mário.” Falou bem assim.

— É, eu estou chegando a essa conclusão, também…

— E outra, não gostei nada do comportamento da Lílian no baile. Ela andando na sua frente com aquela cara, de cigarro na mão. Parecia uma vadia!…

Depois do almoço, ao voltarem do restaurante, Mário de súbito resolveu acabar com o impasse, sem esperar pelo encontro da noite.

— Vou dar um jeito nisso agora mesmo! — disse a Jorge, num impulso.

Severo, que estava conversando com Jorge, duvidou, brincando, que ele levasse o plano até o final.

— Ela vai começar a te fazer carinho e você vai perder a coragem!

*

Lílian estava tomando banho, e enquanto esperava Mário ficou conversando com Júlia. Então a menina chegou. Seu rosto irradiava uma alegria calma e encantadora. Aproximou-se e encostou-se ao corpo de Mário.

— Que cheirosa! — confessou o rapaz.

Ela fazia seu rosto roçar no dele, e o encanto era quase irresistível. Mas quando Júlia entrou na casa, Mário disse:

— Lílian, vou terminar de novo com você…

Ela pareceu oscilar entre a alegre incredulidade e o choque. Nesse momento Júlia voltava para buscar a cachorrinha Midnight, que lhe fugira. Quando ela novamente entrou na casa, Mário prosseguiu:

— Quer que eu explique por que, ou não precisa?

— Claro que precisa… — respondeu Lílian, com a mesma expressão confusa no rosto. Ela se afastara um pouco do rapaz.

— É por causa do “pode ser”, do “talvez”, do “não sei”, do “já vai tarde”, do “não posso explicar”…

Ainda mais afastada ela deu, coisa de momento, um riso nervoso, quase um soluço.

Depois disso foram até o portão, pois Lílian não queria que sua irmã ouvisse a conversa. Ali ficaram por mais de 1 hora, às vezes falando de assuntos paralelos, sem relação com o rompimento.

— Sabe que agora eu estou sofrendo? — sorriu Lílian num certo momento.

Ela parecia mesmo estar sofrendo. Estava também comovida e quase encantada com sua descoberta.

— Eu gostaria de saber onde foi que eu errei… — murmurou o rapaz.

— Você não soube me compreender, Mário!…

— Pô, Li, você deixa de se encontrar comigo para se encontrar com esse rapaz, e ainda quer que eu compreenda?!

E prosseguindo:

— Eu não tenho vocação pra corno, Lílian!

— É… — disse ela suavemente. — Eu brinquei com você… e brinquei comigo mesma…

— Eu poderia continuar o namoro só para os beijos e carícias, mas acho que as desvantagens seriam insuportáveis…

Após um momento de silêncio ela falou docemente:

— Vamos entrar, Mário?

— Não; preciso ir.

E acariciando o rosto de Lílian:

— Tiau…

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