8 – O Desfile, a Derrapagem e a Volta

Mário reviu Lílian na sexta-feira. Era aniversário da cidade e havia na avenida principal um desfile de estudantes e carros alegóricos. Primeiro passaram os veículos, e em seguida os numerosos pelotões de alunos das séries iniciais. Os jovens estudantes marchavam com garbo e graça, descontados os passos errados e a sinuosidade das fileiras, que os professores se empenhavam em corrigir. Surgiram depois os rapazes e as moças das últimas séries e dos cursos de segundo grau. Nessa altura o quase final do desfile promovia uma aglomeração excepcional de pessoas, que fazia avançar para a pista os cordões de isolamento.

Entre os estudantes de mais idade já não havia graça nem garbo, mas apenas o desconforto de quem acha ridículo o empertigamento exigido pelos desfiles.

Num certo momento Mário e Jorge divisaram Lílian, que procurava, com outros colegas, mostrar uma descontração que de fato não sentiam. Com o seu grupo a ainda 30 metros dali, e o desfile represado pela exibição de balisas diante do palanque oficial, a moça chegou mesmo ao exagero, saindo por um momento da fila para alcançar um picolé que lhe ofereciam da assistência.

— A sua ex-namorada está me decepcionando ainda mais! — afirmou Jorge. — Está se portando como um moleque!

— Eu acho que desta vez ela pirou. A Maria me disse que domingo ela voltou à quermesse e dançou a noite inteira, sem parar um minuto!…

Mas Mário mostrava uma objetividade que não correspondia ao seu estado interior. Nos últimos dias pensara em Lílian o tempo todo, e vivera amargurado.

*  *  *

No dia seguinte Mário decidiu, de estalo, visitar sua família em Oliverama, a 300 quilômetros dali. Pegou algumas roupas, atirou-as no banco traseiro do Fusca, avisou Jorge e partiu.

Mas nem na estrada conseguiu desviar o pensamento do tema absorvente. Lílian ressurgia em cenas felizes, Lílian afastava-se para os braços do outro rapaz. As imagens se revezavam e se sobrepunham, até que o carro derrapou perigosamente numa curva. Por um momento, Mário voltou à realidade imediata, mas logo depois as imagens retornaram, ainda mais misturadas, indefinidas.

De repente veio-lhe um pensamento banal: “A 100 quilômetros por hora, é fácil derrapar nesse cascalho”. Lembrou-se de alguns trechos que logo iria alcançar, e onde a estrada era formada por aterros de 1 ou 2 metros de altura. “É muito baixo!…” concluiu. Seguiu em pensamento até a próxima cidade, verificando trechos e mais trechos da estrada. Nada, só pontes baixas, baixos aterros. Tentou achar outra saída; pensou em barbitúricos, pensou em tiro de revólver, mas eram soluções para depois, já que não tinha consigo nem a arma nem as cápsulas. Entreteve-se nesse novo tema por uns 10 ou 15 minutos, e depois surpreendeu-se livre das turvas imagens e dos turvos propósitos. Agora apenas sentia uma funda tristeza, uma dor doce e cortante.

Mário permaneceu em Oliverama até a manhã da segunda-feira. Nesses dias a crise persistiu, mas atenuando-se; chegou mesmo a alcançar, em certos períodos, alguma paz interior.

Voltou a Passolerim e a crise recrudesceu. No bar ao lado da República encontrou Fernando, funcionário da firma.

— Parabéns! — disse ele.

— Parabéns por que?!

— Terminou com a menina, hem? — tornou Fernando, com seu olhar vesgo e inequivocamente satisfeito.

— Ué, como você soube?

— Eu vi a Lílian outro dia, depois do desfile. Estava com aquele rapaz do banco…

Mário acabou perguntando, procurando não demonstrar excessivo interesse:

— Eles estavam de mãos dadas ou . . .

— Estavam agarrados. Ou melhor, ela estava agarrada no braço dele…

*  *  *

Na terça-feira Mário foi ao escritório. Lílian e Solange iam saindo para o café, mas a ex-namorada nem olhou, e o rapaz foi tratar de assuntos da firma com a Marisa, que ainda estava no salão. Precisou depois ir a uma repartição pública, evitando dobrar à esquerda por supor que as duas moças haviam seguido para o Quico. Foi em frente e as viu 100 metros adiante, na mesma rua. Como daria tempo de dobrar na próxima esquina, não desviou do trajeto. Ao convergir à esquerda, porém, deparou com uma jamanta completamente atravessada na rua. Poderia dobrar à direita, mas continuou e passou ao lado das garotas. Solange percebeu a aproximação e sorriu, maliciosa mas temendo a reação de Lílian. Mário olhou, mas a ex-namorada não correspondeu.

*  *  *

Quando voltou ao escritório, dias depois, Mário encontrou Solange no balcão do vestíbulo. Ali mesmo tratou de alguma documentação pendente, e a moça entrou no salão para verificar. Pouco depois, quando parecia ter surgido um novo problema, Lílian saiu do salão e aproximou-se. Até ali triste e chateado, o rapaz não demonstrara o menor desejo de vê-la, por causa do comportamento da moça no outro dia. Olhou então para ela.

— Oi, Mário! — disse Lílian.

Seu rosto também estava triste, e a voz soou clara e amiga.

*  *  *

No domingo, o dia transcorreu monótono e angustiante. À noite Mário foi ao cinema com Jorge. Não, não ia para ver Lílian; provavelmente ela nem estaria lá. É verdade que depois daquele “Oi, Mário!” uma tênue esperança tentou infiltrar-se em seu coração, mas sem resultado aparente. Dentro do cinema, entretanto, Mário pensava ver Lílian em cada garota que passava. Ocorreu-lhe que quando menos esperasse ela poderia surgir, envolvida pelo braço de outro rapaz, e um sentimento dorido entrou-lhe pela alma. Afastou o pensamento.

O primeiro filme foi muito bom. Meia hora depois de iniciado o segundo, entretanto, os dois rapazes resolveram sair, desinteressados. Ao abrir a porta do carro Mário viu, 50 metros à frente, duas figuras que lhe pareceram familiares. Uma delas poderia ser Lílian. Mário não acreditou muito, mas ao invés de tomar a avenida ou outro caminho, seguiu naquela direção. Nada falou a Jorge, e o carro passou à esquerda das duas moças. O ângulo de visão e o escuro da noite não ajudavam, mas o rapaz concluiu que eram Lílian e sua irmã Dayse. Isto levou seu coração a rebelar-se e tomar as rédeas. Queria novamente ocupar-se com Lílian, e Mário não mais impediu. Havia, triunfante, a esperança de que ela aceitaria um recomeço.

*  *  *

Entrou no salão. Cumprimentou Marisa, na escrivaninha próxima à entrada, e em seguida dirigiu-se a Lílian, que estava cabisbaixa.

— Oi, Lílian!

— Oi — respondeu ela, de má vontade.

— Tudo bem? — insistiu o rapaz.

A voz da moça saiu baixa e quase à força:

— Tudo bem…

Enquanto outros funcionários procuravam algumas pastas de documentos, Mário hesitou mas acabou por escrever no pequeno papel que tinha nas mãos: “Preciso falar com você. Pode ser?” Aproximou-se da escrivaninha e pôs o papel à frente da moça, voltando-se em seguida para o João, que lhe perguntava algo sobre os documentos. Quando se aproximou de novo de Lílian, viu que seu rosto, até ali fechado, se abrira num sorriso comovido:

— O que você quer que eu responda?

Mário pegou de novo no papel e escreveu: “Quero que você responda “SIM”.

Depois que a moça leu, Mário disse:

— Agora é a sua vez de escrever!…

— Já está escrito!… — disse ela, afastando o papel de si.

— É isto aqui? — perguntou ele, tocando com o dedo a palavra “SIM” no papel.

— Ahan…

— Você está ocupada, agora?

— Estou.

— Não estou vendo você fazer nada!… — brincou ele.

Lílian, que preenchia um formulário, respondeu:

— Estou fazendo um frete…

No final do expediente Mário voltou ao escritório, esperando do lado de fora. Lílian logo apareceu, e era como se nunca tivessem deixado de namorar. Foram caminhando devagar para o carro e entraram. Trocaram algumas palavras alegres e então o rapaz começou:

— Você está namorando alguém, Lílian?

— Não… Por que?

— Lílian, eu estive pensando muito nestes dias e… cheguei à conclusão de que é insuportável ficar longe de você…

E depois de uma ligeira pausa, intencionalmente parafraseando-a:

— Estou pedindo pra você voltar.

Ela abaixara a cabeça, e assim ficou por um momento. Em seguida voltou-se para Mário e, com o mesmo sorriso comovido, envolveu nas suas as mãos do rapaz:

— Eu também senti a sua falta, Mário!

Depois ela disse:

— Vamos?

Mário ligou o motor e sairam

— Vi você no desfile, chupando picolé!

Ela sorriu, divertida, e o rapaz continuou:

— O Jorge te chamou de moleque!

— Ah, estava muito chato! Só desfilamos porque o professor prometeu dois pontos para cada uma…

— E depois do desfile você foi vista com o rapaz do banco…

— É, eu estava lá com a Júlia, o Nélio e o Geraldo.

— Me disseram que você estava agarrada no braço dele…

— Pô, a gente não pode nem conversar com um rapaz que…

O veículo estacionou defronte à casa.

— Minha mãe anda tão nervosa estes dias!… Esta casa está um inferno!

— Por que, Li?

— E eu sei? Minha mãe é assim, mesmo.

Quando iam se despedir, Lílian disse, alegre:

— Hoje não vou ter aula!

— Que bom!

— Mas preciso ir à escola ver minhas notas. Você me encontra lá?

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