9 – Desencontros

Mário pegou Lílian na porta do colégio, e depois ficaram rodando pela cidade. Conversavam; o rapaz deixava o carro seguir seu rumo durante os beijos,  paravam em algum ponto para um beijo mais demorado, seguiam depois em frente.

— Você acha mesmo que vai dar certo, Li?

— Eu acho. Se depender de mim vai dar certo.

Algum tempo depois o carro seguiu para um local menos frequentado, próximo a uma igreja protestante. Ali, mais à vontade, puderam se beijar mais longamente. Mário acariciava os seios de Lílian e, por sobre os jeans, levemente, a região vaginal. Quando um raro mas incômodo veículo passava com suas luzes altas, a moça abaixava-se para não ser reconhecida.

Depois, à frente da casa, na rua mal iluminada, continuaram os jogos amorosos. Enquanto se beijavam gulosamente, a mão esquerda de Mário reencontrou a região púbica, agora com um ritmo que tirava um som áspero do tecido. Lílian parecia excitada, mas não o suficiente para que o rapaz prolongasse o exercício. A moça ligou o toca-fitas e ambos ficaram em seus bancos, se refazendo.

— Estou com medo de minha mãe. Acho que hoje vai haver tempestade…

Eram 9 e meia e se despediram.

No dia seguinte Mário dirigiu-se ao escritório, e foi recebido por um sorriso alegre e cativante. Depois de tratar de documentos com o João, o rapaz achegou-se à escrivaninha de Lílian.

— Houve tempestade? — perguntou.

— Só um pouco!…

O sorriso continuava em seus lábios, mas o espírito da moça parecia estar longe, muito longe.

*

Na quinta-feira, no escritório, Mário recebeu apenas sorrisos cordiais, mecânicos. O espírito de Lílian novamente passeava por distantes regiões. O rapaz pensou em voltar no fim do expediente, para descobrir o que havia, mas rebelou-se contra a ideia ao constatar que a moça não parecia interessada em desabafar com ele.

À noite, na República, as nuvens escuras voltaram à mente do rapaz. O Vieira, funcionário da coletoria, afirmou brincando:

— Hoje não vou convidar o Mário para o jogo de cartas, porque ele vai estar muito ocupado… namorando.

Isto despertou no rapaz a ideia de contrariar a rotina dos encontros, indo à casa de Lílian antes dela sair para a escola. Olhou o relógio: 6 e 35. Tomou um banho rápido, esqueceu a palavra “jantar” e rumou para lá.

Lílian o recebeu com alegria exuberante. Não mais precisava ir às aulas, pois ao contrário do que soubera antes, não havia ficado para “recuperação”. Ali nas cadeiras da varanda conversavam felizes como duas crianças, interrompendo às vezes para beijos longos e carinhosos. Numa ocasião foram mais longe: depois de acariciar os seios, Mário introduziu a mão por sob o vestido, até chegar à calcinha. Tiveram entretanto de interromper bruscamente esses jogos, pois algumas pessoas passavam na rua, e havia claridade suficiente para os namorados serem vistos. Lílian, por alguns minutos, mostrou-se acabrunhada, como que cheia de vergonha pelo novo avanço sensual.

*

Na noite seguinte foram ao cinema. Quando porém viram o filme que seria exibido, desistiram de entrar. Ficaram algum tempo dando voltas pelas ruas principais, conversando despreocupadamente. Pararam depois no Quico. Na “boate” havia só uma mesa ocupada, e a conversa entre os dois prosseguiu, alegre e carinhosa.

— Mário, posso te pedir uma coisa?

— Claro que pode!

— Eu queria que você fosse meu padrinho de formatura…

— E quem vai me ensinar a dançar valsa?

— Eu ensino!

— Então eu topo!

— . . . Nem que for só para a colação de grau …

Com essa última frase ela quase que desfazia metade do convite, e a partir daí a conversa perdeu a espontaneidade. O rapaz lembrou-se de um vago projeto de aceitar um emprego em outra cidade, mas falou em projeto e data certos. A moça, por sua vez, começou a olhar mais para o bar do que para ele. Mário suspeitou que Lílian procurava alguém em particular, e sentiu renascer o ciúme.

— Viu, Li; eu queria te pedir uma coisa…

— O que é?

— Queria que você me mostrasse quem é esse Sérgio.

— Ele não está aqui! Quando der certo eu te mostro.

Mário sentiu raiva e medo desse Sérgio que não estava ali, e raiva e medo dos que estavam, e raiva e medo de todo o mundo. Os dois namorados saíram logo em seguida.

No carro, Mário deixou que a crise de ciúmes se manifestasse plenamente.

— Li, eu acho que o seu problema com o Sérgio ainda não está resolvido… Acho que você não absorveu bem essa experiência…

Lílian permaneceu calada, pensativa.

— Eu não quero ser uma pedra no seu caminho, Li!

A moça então falou, paciente e carinhosamente:

— Lá no Quico eu fiquei triste porque você disse que ia embora em janeiro, Mário! Estava indo tudo tão bem! Você é quem começou com esses assuntos!…

Foi a vez de Mário permanecer calado. O carro estacionou defronte à casa. O rapaz tinha agora no rosto uma expressão torturada. Lançou, em voz embargada, uma súplica, um lamento:

— Eu te amo, Lílian!

Desta vez ela respondeu irritada, quase gritando:

— Eu já terminei com esse rapaz! Eu não amo mais esse rapaz! Eu odeio esse cara!

Fez-se então um silêncio pesado, que durou mais de cinco minutos. Cada um remoía seus tristes pensamentos. Por fim Lílian quebrou o encanto, aproximando o rosto suavemente, à procura dos lábios do rapaz.

*

Sábado. Lílian estava alegre, encantadoramente alegre. Os dois namorados saíram da varanda para olhar a Lua e o céu. Se abraçaram e se beijaram ternamente.

— Olha só a minha árvore! — disse ela, apontando para o quintal.

— Que árvore feia! Quase não tem folhas! — brincou ele.

— É que ainda estão nascendo. Sabe que eu gosto muito dessa árvore?

— É mesmo?

Ela continuou, agora incorporando o Zezé do Meu Pé de Laranja Lima:

— Eu converso com ela… Hoje mesmo eu conversei bastante com ela…

— E ela responde?

— Claro que responde. Ela estava tão triste… Então eu abracei ela.

A moça parecia impregnada pelo irreal. Depois, como quem faz uma confidência, e como se isto fosse transportá-la ao mundo em que as árvores falam, ela disse docemente que gostaria de morrer.

De início encantado com a sua alegria, com a sua paz, Mário agora se preocupava com o estado psicológico da garota. Por que estava assim? O que a atormentava?

Pouco depois, no carro, ouviam música, mas Lílian continuava com o mesmo estado de ânimo. Para provocá-la, fazê-la descer à Terra, Mário lançou-lhe a pergunta:

 — O que você acha do sexo?

— … uma idiotice.

O rapaz continuou:

— Você é virgem?

Ela pareceu surpreendida, e Mário apressou-se em dizer:

— Retiro a pergunta.

Ela porém respondeu, distante, indiferente:

— Eu nunca dormi com homem nenhum, Mário. Você pergunta se eu sou virgem. Não sei; acho que a virgindade não depende da gente ter dormido com um homem…

— Perguntei por perguntar. A virgindade não significa nada para mim. Lílian, mais adiante eu quero ter relações sexuais com você…

A indiferença, o alheamento de Lílian continuavam. Depois de algum tempo Mário modificou o tom da conversa; perguntou-lhe:

— Você quer fugir comigo?

Ela sorriu.

— Estou falando sério!…

Como quem aceita participar de uma representação, ela fez que sim com a cabeça.

Ao se despedirem ela parecia melhor, mais alegre. Mas quando ele quis saber se haveria encontro no dia seguinte, ela respondeu:

— Se eu ainda estiver viva…

*

Nos encontros seguintes, em alguns parecia haver finalmente um bom entendimento; mas em outros, apenas o tédio, a falta de sintonia. Nesses últimos Mário tentava abrir um diálogo, procurando descobrir o que havia de errado no relacionamento deles. Entretanto, as perguntas de Mário eram inadequadas, e as respostas de Lílian monossilábicas ou evasivas. Com isto parecia estar se desenhando no horizonte um novo rompimento. Mas também já surgia o cansaço da mesmice, das acusações inconsequentes e das provocações inócuas.

Num certo dia, o encontro ia se encerrando:

— Preciso entrar — disse ela abrindo a porta do carro.

— Amanhã é sábado; quer que eu venha aqui à tarde?

— Você é quem sabe…

— Eu perguntei se você quer que eu venha! — insistiu ele em tom áspero.

Sentindo-se acuada, ela se manteve inerte.

— Tiau! — disse ele.

Com a mesma rispidez ela respondeu, descendo do carro:

— Tiau!

No dia seguinte, logo cedo, Mário passou na casa de Lílian apenas para avisar que estava saindo para Oliverama, onde passaria os 21 dias de suas férias. Se despediram com apenas uma beijoca.

*

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