4 – O Quebra-Galho e a sua Mão-Boba

No domingo seguinte o encontro da tarde fora difícil. Lílian mostrou-se fria, como se apenas por obrigação estivesse recebendo o rapaz. Conversaram pouco, observaram muito a pesada chuva que caía.

À noite não choveu, mas o rapaz chegou, com má vontade, uns 15 minutos depois da hora costumeira. Deram-se, na varanda, uma beijoca, e ela, entrando com ele, foi ocupar-se na copa de um trabalho escolar.

— Estou terminando; senta aí! — intimou ela.

Mário ali ficou por um momento, mas como estava magoado voltou à sala de estar e ficou acompanhando o desenho animado na TV. No sofá refestelava-se Milton, o irmão caçula. Daí a pouco passaram por ali Dayse e Yasmim, vindas da cozinha.

Quando a garota terminou sua tarefa Nélio e Júlia já haviam expulsado Milton para um canto do sofá e ocupavam a sua maior parte. Lílian então chamou Mário para o pequeno sofá instalado na parte lateral da sala, junto ao tocafitas. Notando o seu acabrunhamento, perguntou:

— O que você tem?

— Estou chateado com você…

— Por que? — perguntou ela, quase indiferente. — Eu te fiz alguma coisa?

— Não é o que você fez, Li; é o que você não fez. Quando chego no escritório você me trata como a um estranho, e não como a um namorado. E agora à tarde teve novidade: você me tratou mal também aqui na sua casa…

— O que você quer que eu faça? Eu não posso abandonar o serviço para ficar conversando com você, Mário!

— Não é isso, Li. Não é o tempo que você perde comigo; é o modo como você me trata!

Ela nada respondeu.

Passou algum tempo e Mário concluiu que tanto o mutismo quanto a discussão levaria a nada. Fez então um esforço para tirar a mágoa do rosto e acariciou os cabelos de Lílian. Com isso ela também foi voltando à boa cara e acabaram se beijando.

Quando a mãe de Lílian e o garoto foram dormir, os dois namorados saíram para a penumbra da varanda. Ali ficaram a se beijar. Mário abriu um botão da blusa de Lílian, e assim alcançava seus seios por debaixo do tecido do sutiã. Estiveram praticando esses jogos amorosos por uns vinte minutos, até que o outro casal apareceu à porta. Mas Lílian já havia afastado a mão do rapaz e arrumado a blusa às pressas.

*

Era de novo sexta-feira, e ao findar o expediente Mário dera uma carona a Lílian. Estacionado o carro defronte à casa, a moça ficou séria.

— Mário, amanhã a gente não vai poder se ver.

— Não?! — reagiu ele, desapontado. — Por que?

— Porque não… — disse ela, displicente.

— Mas deve ter um motivo, Li. Por que a gente não poderá se ver?

— Não posso explicar…

E logo depois:

— Você ficou bravo?

— Não: apenas furioso!

E continuou:

— Pô, a gente fica a semana inteira sem namorar, e quando chega o sábado…

Lílian mostrava-se irredutível; Mário procurava uma fresta de esperança:

— Você vai sair? Não vai estar aqui nem à noite?

— Não; vou dormir cedo.

— Vai haver algum evento aqui na casa?

— Não.

— Por que, então?

— Não posso explicar…

— Lílian, você está propondo que terminemos?

— … Por que você está dizendo isso?

— É você que está dizendo isso.

E como ela não respondesse:

— Li, eu não gosto de agonia, sabe?

— Por que “agonia’?

— Se for para terminar no domingo, prefiro terminar agora.

Lílian retrucou, indiferente:

— Eu não estou querendo terminar com você!…

— Tá legal! — resolveu ele. — Amanhã a gente não se vê. E depois de amanhã?

— Depois de amanhã… — disse ela satisfeita, oferecendo os lábios para a despedida. — Depois de amanhã a gente se vê.

*

Domingo à noite. Mário chegou lá às 7 e meia, e quando estacionou o carro Lílian já abrira a porta da casa. Falaram-se “oi”, porém ela, embora não estivesse de mau humor, não se achegou a ele como de costume. Atravessaram a sala e foram para a copa, onde a garota estivera fazendo um trabalho escolar.

— Vamos terminar esse trabalho? — propôs ele. — Eu te ajudo!

Ela não se animou; ficou rabiscando o caderno, como se esperasse algo.

— Pensei que você não viesse… — disse ela num certo momento.

— Ué, por que eu deveria deixar de vir?

— … Depois preciso conversar com você.

A frase saiu rápida dos lábios da moça, em tom baixo. Nem bem a havia terminado e falou de outra coisa qualquer, em tom normal, como se quisesse encobrir aquelas palavras. Mário quase acreditou ter entendido mal.

Foram sentar-se no pequeno sofá lateral, pois no outro já estavam Júlio e Nélio. Mário percebeu que Lílian evitava aproximação, parecendo ainda esperar. Finalmente ela abriu um sorriso.

— Sexta-feira eu fui consultar a cigana!

— Verdade?

— Ahan! Ela falou certinho de tudo o que me aconteceu, e até da minha vida atual! Disse que eu estou namorando alguém muito bacana!…

— Disto eu estou sabendo! — brincou ele.

— Ela também falou no futuro. Falou que eu devia confiar em você…

— Que bom!…

— Disse que eu devia te amar muito!…

— Só não quero que você me ame só porque a cigana disse!…

Ela suspirou.

— Não sei, Mário… se eu vou ser capaz de te amar. Eu amei muito um outro moço…

Mário ficou sem o sorriso e completou por ela:

— … e ainda o ama.

Ela assentiu.

— Você sabe aonde eu fui ontem? — recomeçou Lílian, quase a medo.

— Acho que sei.

— Onde?

— Bom, não sei se vou acertar: num casamento.

— Quem te contou?

— Ninguém. Dedução minha. Há duas semanas ouvi a Júlia falar de um casamento; seria no dia 30…

— E você sabe onde aconteceu esse casamento?

— Não, não sei. Sei que foi numa fazenda.

— Sabe, Mário? Lá eu encontrei o Sérgio. Ele tinha avisado que iria ao casamento para falar comigo…

— E daí?…

Ela abaixou a cabeça, sem responder.

— E daí vocês resolveram voltar…

— Não é isso!… — retrucou Lílian.

— É esse o moço que você amou muito?

Ela fez que sim, sem levantar a cabeça.

— Você quer terminar?

Lílian assentiu, com um movimento quase imperceptível.

— Tá legal! — disse ele por fim, desconsolado. — A gente não pode ganhar sempre, não é? Em todo o caso… eu gostei muito de ter namorado com você. Tá legal: não estamos namorando mais.

Passado um momento, ela levantou a cabeça:

— Não foi isto o que eu quis dizer, Mário!

— O que foi, então, exatamente, o que você quis dizer?

Ela aproximou o seu rosto.

— Eu quero continuar com você, Mário!

E ofereceu os lábios.

— Então eu também quero! — disse ele, aliviado.

Beijaram-se.

— … Mesmo sabendo que eu amo outro?

Mário ficou aturdido. Preferia sair dali e pensar, mas era preciso responder, mesmo sentindo-se no papel de palhaço.

— Você tem ainda algum tipo de relacionamento com esse rapaz?

— Não.

— Não mesmo? — enfatizou ele, fitando seus olhos.

— Claro que não! — disse ela, entre séria e divertida.

Beijaram-se novamente.

— O que vocês conversaram no casamento?

— Ele queria voltar…

— E você concordou…

— Não; eu disse pra ele que estava tudo terminado.

— Mas se você o ama, por que não volta?

— Não posso…

— Por que não pode?

— Minha família não deixa…

— E isto é obstáculo?!…

— Claro que é.

— Há outro motivo além desse, não há?

— Talvez…

— Isto não é resposta, Li. Há ou não há?

Sentindo-se acossada, ela não respondeu. Mas depois asseverou, para encerrar o assunto:

— Eu preciso de você, Mário!

O rapaz refletia.

— E pra que é que você precisa de mim? Pra ajudar a esquecer?…

— Talvez…

Mas continuou, carinhosa:

— Sabe, Mário? Eu não posso ficar sozinha… Preciso de alguém pra conversar, contar meus problemas…

— Pois então acabou de encontrar! — brincou ele, já de melhor ânimo. — A partir de agora vamos ser amigos!

— … e namorados! — completou Lílian.

Depois disto Mário voltou a perguntar do ex-namorado, se não havia mais nada entre eles. Achou que devia ser informado caso o outro rapaz lhe propusesse nova entrevista.

Tudo então voltou ao normal, e pela primeira vez ela se interessou pela vida de Mário.

— Você gosta do seu serviço? — quis ela saber.

— Bom, eu gosto muito do que faço, pois é trabalho que me exige tanto no físico quanto no intelectual. Uma de minhas funções é visitar florestas e verificar seu estoque potencial de madeiras de lei. Percorro matas, às vezes escalo árvores gigantes para ter uma visão de conjunto. Outra função é cuidar dos contratos com os proprietários das terras, e depois regularizá-los nos cartórios e no teu escritório.

— E aquele seu colega de firma que estava tentando namorar a Neusa?

— Ah, o Jorge! Como colega de quarto, na República, é um cara legal, embora um tanto aloprado. É mais uma figura decorativa, cria de um político regional; um protegido do patrão…

— E as tuas namoradas? Quantas namoradas você já teve?

— Deixa eu pensar… Acho que três ou quatro, entre namoro e namorico… Pouco, né?

Então eles se beijaram longamente. Lílian posicionou-se no sofá de modo que os outros não percebessem a mão de Mário bolinando-a do lado esquerdo. Nisto a luz começou a enfraquecer, sinal de que apagaria em momentos. Aproveitaram então para intensificar os jogos amorosos. As mãos de Mário comprimiam ritmicamente os seios da moça. A mão esquerda desceu até a região do umbigo e dali sua palma percorreu e pressionou por dois segundos, por sobre a roupa, a região norte do triângulo púbico. Depois voltou ao seio. Já não se beijavam, pois ela se abandonava às carícias do rapaz. A luz apagou de vez. A mão desceu novamente e percorreu, pela primeira vez, sobre o tecido das calças jeans, as coxas e a região da vagina.

No sofá maior os outros dois tinham praticado exercícios semelhantes. Havia agora, sobre o televisor, uma vela trazida da cozinha. Lílian olhou interrogativamente para o rapaz, como querendo sondar suas intenções. Disse então, muito séria, que estava com sono e iria dormir.

Foram até a varanda para a despedida, mas ela não permitiu novas intimidades. Num abraço quase fraternal, ela encostou a cabeça no ombro de Mário e este acariciou ternamente os seus cabelos. Beijaram-se. O olhar de Lílian novamente o interrogou, mudamente.

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